--Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!

--E transportal-os? E transportal-os? Dizia o barão, abanando a cabeça.

De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. Gagula que ia, vinha, ás voltas, na sala escura, como um morcego, de braço estendido para nós:

--Hi! Hi! Hi! Ahi está satisfeito o desejo vil dos vossos corações, homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares d’ellas! E todas vossas! Agarrai n’ellas! Rolai por cima d’ellas! Hi! Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei as pedras!

Havia alguma coisa de tão grotesco n’aquella idéa de beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, ás gargalhadas. E alli ficámos todos, de mãos nas ilhargas, perdidos a rir, a rir, a rir! Riamos de quê? Nem sei. Riamos dos diamantes--d’aquelles diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomão tinham escavado para nós, que os agentes de Salomão tinham armazenado para nós... Pertenciam a Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram nossos agora, os seus diamantes! Não tinham sido para Salomão, nem para David, seu pae, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham sido para o atrevido e velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para nós! Só para nós! Para nós aquelles milhões e milhões de libras, que, n’este seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão poderosos como outr’ora Salomão. De facto eramos Salomões!

De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente.

--Abri as outras arcas! Gania no emtanto Gagula. Estão tambem cheias! Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos!

Em silencio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n’um desesperado esforço! Hurrah! Cheias tambem! Cheias até cima!... Não, a terceira estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, d’um peso, d’um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello. Eram «diamantes de côr», como elles dizem em Kimberley, nas minas.

Tinha eu um d’estes na mão, enorme, quando de repente ouvimos gritos afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:

--Acudam! Acudam! Que a porta de pedra está a cahir!