Ergueu-se, e bateu com o pé no chão. Uma immensa esperança relampejou-nos n’alma. A lage soava ôco.

Com as mãos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n’um recanto, de que ainda não suspeitaramos--e aos nossos pés, na lage que pisavamos, e como encrustada n’ella, havia uma grossa argola de pedra. Não tivemos uma palavra, na immensa excitação que de nós se apoderou. John tinha uma navalha, com um d’esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e começou a raspar com o gancho, em torno da argola. Raspou, raspou--até que conseguiu introduzir a ponta do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pôl-a a prumo. Depois deitou-lhe as mãos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.

--Deixai-me vêr a mim! Exclamei com impaciencia.

Agarrei, pondo toda a minha força no puxão contínuo e intenso. Escalavrei as mãos. A pedra não se moveu. Depois foi o barão. Sentiamol-o gemer. A pedra não se moveu.

De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em redor a frincha por onde nós sentiamos como um debil halito de ar. Em seguida tirou um grosso lenço de sêda que lhe envolvia o pescoço, e passou-o na argola.

--Agora, barão! Mãos ao lenço, e puxar até rebentar! Quartelmar, agarre o barão pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, !

Em silencio, com os dentes rilhados, puxámos, puxámos--até que eu sentia rangerem os ossos do barão. Era elle que fazia o esforço maior, com os seus enormes braços de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer...

--Agora! Agora! Está cedendo! Mais! Ála, ála! Héh!

Um estalo, uma rajada brusca d’ar, e rolámos estatelados no chão, com a pedra por cima de nós. Fôra a immensa força do barão que fizera o prodigio. Que grande coisa, a força!

--Um phosphoro, Quartelmar! Exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante.