--Cuidado, gritei eu! Póde haver por baixo algum medonho buraco. Vá tenteando... Mão encostada sempre á parede...
O barão desceu contando os degraus. Quando chegára a «quinze» parou.
--É um corredor, gritou elle debaixo. Descei!
Quando chegámos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos restavam. Á luz que elle deu, vimos um pequeno espaço, onde se encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro morreu, queimando-me os dedos. E ficámos n’uma horrivel hesitação! Qual dos tunneis seguir? John então lembrou-se que a chamma do phosphoro se inclinára para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado do ar.
Aceitámos a idéa. E apalpando sempre a parede, não arriscando um passo sem tentear o sólo, seguimos n’esta nova e incerta aventura. Ao fim d’um quarto de hora de marcha lenta, esbarrámos n’um muro. Era outro tunnel transversal, por onde continuámos cosidos com o muro. Depois d’esse topámos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais largo. E assim durante horas. Estavamos n’um labyrintho de rocha viva. Para que tivessem servido outr’ora estas innumeraveis passagens subterraneas, não sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de mina.
Finalmente parámos, esfalfados, com a esperança meia perdida. Comemos os restos das provisões, bebemos os derradeiros goles d’agua. Tinhamos escapado de morrer nas trevas d’uma cova de diamantes--para vir talvez morrer nas trevas d’uma mina vasia...
Quando assim estavamos sentados no chão, encostados ao muro, n’um infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a distancia. Avisei os outros, escutámos sem respirar. E todos muito claramente distinguimos um som. Era muito tenue, muito remoto,--mas era um som, um som murmurante e contínuo.
--Santo Deus! Exclamou John. É agua a correr! Tenho a certeza que é agua a correr.
N’um instante estavamos de pé, caminhando para o som. A cada passo o sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um ruido forte, o ruido d’uma corrente d’agua. Mas como podia haver agua corrente n’estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli perto corria agua com força. John, marchando adiante, jurava que lhe percebia já a humidade e o cheiro.
--Devagar, John, devagar! Gritou o barão. Devemos estar perto...