—Como vais? indagou lançando para o meu lado um olhar obliquo, e baixinho: Espera um momento, abro já, sim?
Recolheu-se e voltámos a passear. Ainda gritavam pelo Ferreira. Debruçámo-nos á balaustrada: em baixo andavam soldados antigos, com grandes escudos rutilantes, jacarés arrastando caudas enormes, monos, demonios e camponezes, uma promiscuidade mirabolante, gente e animaes, em intimidade só comparavel á que existiu entre esse troço de salvados que andou pelas aguas do diluvio dentro da arca, para perpetuar as especies. Fios de luzes tremeluziam ao alto, por trás dos pannos. Subiam vistas, arrastavam-se bastidores—havia um grande rumor de faina. De repente uma voz fanha entoou
Nu... unca percas a esp’rança
e outra violenta e desesperada esbravejou:
—Quem diabo tirou daqui as minhas botas? Isto é uma pocilga! Ah! seu Alvaro!... Quem diabo tirou daqui as minhas botas?
Foi, foi, foi...
outro cantarolou em tom de troça. Travou-se um dialogo azedo atravéz do tabique divisorio de dois camarins e riamos dos palavrões, quando uma velhota nos veiu dizer que—«madama estava prompta».
Fomos immediatamente e, á porta, o doutor, lisonjeiro, indagou com ternura:
—Dás licença, Titania?
Entrámos. O doutor apresentou-me como «favorecido das musas.» Jesuina sorriu e mostrou-me um divan forrado de damasco vermelho. A velhota, que nos acompanhara, tomou de uma prateleira um par de sapatinhos brancos debruados á sarja, agachou-se e, com os pésinhos de Jesuina ao collo, calçou-os sem esforço, suavemente. E ella, delicada e meiga, voltando para o meu rosto os olhos admiraveis: