Foi morrendo o rumor dos passos de meu tio e achei-me só com o meu remorso. Baixei os olhos para o pellego amarello e vi as minhas botinas manchadas como o nome immaculado e probo dos Ribas, que eu arrastara, sem escrupulo, pelos canaes do vicio, como um podengo estrafega e arrasta pelas sargetas um trapo. Tentei aturados esforços para reconstituir a scena nefanda que tanto me rebaixara aos olhos do meu digno tio, mas a embriaguez correra um denso véu sobre o passado. Sentei-me na cama como um bonzo e meditei sobre os acontecimentos dessa noite de depravação e delirio, mas só consegui lembrar-me dos olhos de Jesuina—divinas pupillas de mulher, supercilios divinos! Por fim o raciocinio foi desbastando, pouco a pouco, a densidão alcoolica e deduzi, com profunda logica que, se eu esmurrara o doutor, não fôra sem motivos, a menos que o punch illuminado me não tivesse enlouquecido por momentos. Mas do fundo do meu amor levantou-se o espectro terrivel do ciume—ah! fôra de certo o ciume o movel desse crime.
O doutor, apezar das doutrinas que expende, é azevieiro como D. Juan e Jesuina não é mulher que se despreze, principalmente depois de uma terrina de punch em chammas, e assentei que quem armara o meu braço, quem fechara o meu punho para os murros fôra esse mesmo sentimento que fez do mouro apaixonado um estrangulador e que, em nossos dias, na cidade tranquilla do meu sertão, armou uma scena de escandalo na sacristia da igreja parochial em que me lavei dos peccados e ganhei o nome de Anselmo, entre o padre Coriolano e o sapateiro Gaudencio, afinador de pianos e trombone da philarmonica.
O ciume...! Jesuina! devo-te a triste desgraça de ter molestado o meu illustre e douto cicerone. Se algum dia o domares com os teus olhos doces e crueis, arranca-lhe do fundo do odio o perdão para os murros que por teu amor lhe dei, lembrando-lhe que Jesus tambem perdoou, invocando piedosamente, com a santissima resignação de martyr, a clemencia do Pai para os legionarios: «Perdoai-lhes, meu Pai! elles não sabem o que fazem!»
Eu tambem não sei que fiz, palavra de honra, posso mesmo ajuntar que não foi por querer.
Que fazer? Correr á casa do doutor para pedir-lhe que relevasse a brutalidade do meu vinho brigão, confessar a minha fraqueza...? não. Decididamente só me restava um alvitre—voltar á minha terra e esconder entre as arvores, que me viram criança, boas arvores amigas que me carregaram tantas vezes nos seus braços verdes, a minha vergonha, o meu opprobrio. Era, de certo, a resolução mais acertada e mais digna. Saltei da cama e enfiei as calças, adiantando-me para o espelho, curioso de ver a devastação da minha physionomia e não foi sem pasmo que reconheci todos os meus traços intactos—apenas a barba, que apontava, punha-me uma orla azul pelo queixo e, em volta dos olhos radiados um halo roxo—no mais era eu mesmo, fresco e forte, com as minhas cores de serrano, com os meus cabellos negros, em bucres, como os do Apollo.
Vendo-me, esqueci por momentos a estroinice e admirei-me e pensei com vaidade que Jesuina, no silencio do seu boudoir, quando se lembrasse de mim, havia de lastimar a minha ausencia e quem sabe se aquelles olhos formosos não humedeceriam lenços por minha causa, quando eu, já em caminho, de volta ao lar, fosse revendo esses campos monotonos e essas varzeas de uma eterna verdura por onde caminham rebanhos, mugindo, á luz de ouro das manhans.
Pobre Jesuina...! suspirei commovido. Mas, de novo, appareceu-me a idéa da partida. Lancei os olhos a um canto e vi a minha maleta aberta, como se tambem quizesse demonstrar-me a necessidade imperiosa e inadiavel de seguir. Resignei-me e, mollemente, descalço, fui ao cabide buscar o jupon para retemperar-me no banheiro, lavando abundantemente o corpo, já que não podia fazer o mesmo á reputação. Desci.
Meu tio, debruçado á varanda do jardim, extasiava-se no crepusculo, já prompto para jantar. O criado taciturno arranjava a mesa. Nas gaiolas os canarios cantavam estridulamente. Passei de leve como uma sombra; o criado lançou-me um olhar malicioso e baixou a cabeça.
Refrescado e vestido vim tomar o meu lugar á mesa. O tio recebeu-me sem azedume, mais cordial e mais meigo e, quando provou o polme de ervilhas, com os beiços a escorrerem, arregalou-me os olhos como se me quizesse dizer que atacasse, porque estava delicioso! E até a hora dos badegetes não falámos. Foi justamente quando o criado poz diante de mim os peixes que descerrei os labios.
—Não, meu tio, disse repudiando o vinho que elle me servia.