O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de leite—sangue e agua fundidos [{137}] em candura—o ceu commungava na terra.
A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a benção e o perdão.
A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.
Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.
Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem rapida de um anjo.
Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar [{138}] do leite que elle sugava soffrego.
Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.
Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãi!
Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criança, via dois pequeninos seraphins alegres?