—Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa:
—Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o junto do coração. [{140}]
Adoração dos pastores
Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao patriarcha:
—Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.
Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as [{142}] mesmas pedras sem vida estremeceram á minha voz pregoeira.
Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no valle, na montanha e na furna.
De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.