Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem fagulhas; as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados e lividos, estalavam em fendas como golpes.
Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.
Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada, tremendo, estendeu a mão magra, a pedir. [{170}]
Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:
—Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio, bebendo sangue—não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do pobresinho está da côr da anemona.
Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais.
Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o sol mirra na terra adusta.
Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que elle morra depois de mim para que eu o receba na morte. [{171}]
Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu sugar avidamente.
A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.