JOANNA—Não acredito...

MIGUEL—Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e nos amores.

JOANNA—Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!

MIGUEL—Continua a brincar comigo!

JOANNA—Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma pergunta que me fez ha pouco:—O que quer de mim?

MIGUEL—(não atina com a resposta) Eu?

JOANNA—Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...

MIGUEL—Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.

JOANNA—É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, com alguma{38} rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no theatro? Não lhe digo os dias em que vou shopping pelo Chiado? Para quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.

MIGUEL (tristemente)—Felizmente?