Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido; e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...

Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez voltar, n'uma festa, a percorrer{67} todo o corpo branco, que era, na agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.

Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a Rainha pensava.

E esperava...

Balkis esperava o noivo que havia de vir.

De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam{68} uma eloquencia calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos, as sandalias ligeiras.

E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o cabello loiro.

Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se:

—Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume, ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil!

Balkis esperava.