Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura, enormes rosas escarlates, como{69} boccas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil, intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos, alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos, brilhava a mocidade.

Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.

E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada, como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem aspirou.

Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma, como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David, guardou Balkis, Rainha de Sabá!{70}
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[CHIARA LILIAM]

A VICENTE D'ARNOSO.

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[CHIARA LILIAM]

Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata...

Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.