Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.{74}

—É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me.

Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos.

Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial, immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra.

Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas, crusavam-se os camions.

Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades que tive da{75} paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos, flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes!

Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas.

Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á Gran Via e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se offerecem, n'um chale rôto.

Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com{76} que regalava os suissos e inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.

Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das inglezas de Cook, de dentes monumentaes e canotiers ridiculos! E as noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os petits chevaux e iamos, costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!