—Não. Deixe-se estar; vamos nós.
Ao sahir da capella, passando os pinheiros mansos, em circulo, como a formar um adro, descia uma escada balaustrada, n'uma curva larga, ladeada de roseiras. Depois dois caminhos direitos, onde branquejavam estatuas, cantavam repuxos esguios que no alto se abriam, como lirios de cristal perpetuamente a florir e a quebrar n'um ruido claro.
—Onde ha maias? perguntou André.
—Não sabes? É alli no fim, uma grande encosta, por baixo do tanque dos tristões... Não conheces a quinta!
—Como queres que a conheça? Não venho cá nunca!
—Hei de mostrar-te a quinta, agora... Has de gostar. Vaes-lhe tomar gosto. Olha, é aqui...
No fundo verde abriam-se, sorriam, na manhã clara, como pequenas estrellas, as maias{118} d'oiro. Desde o caminho apertado entre fitas de marmores que as roseiras invadiam, marinhando pelas estatuas dos deuses e das graças, luziam maias.
A fonte despejava, pelas buzinas brancas de tres tristões, cujas caudas se enroscavam, fitas d'agua.
Tudo cantava, tudo era alegre, na manhã radiosa. A encosta descia, verde da relva, das arvores copadas, mosqueada pela brancura dos marmores, brilhos de flores, sobre tudo rosas-chá, enormes e delicadas, flores de cera e flores de carne, sensuaes e finas, como um beijo em que os labios mal se tocam, na pressa, mas em que as almas se confundem, n'uma vertigem. Em baixo continuava a descida rapida da colina, viam-se tectos angulosos de casas, faiscas que o sol levantava das janellas, linhas tortuosas de ruas, arvores de praças, o Rocio, como um lago de fogo a brilhar nas pedras claras, a Avenida n'uma chapada verde; vivamente um monte subia em apertadas casarias, alastrava-se por todos os lados a cidade, perdiam-se na perspectiva os telhados irregulares, até os montes violacios da Outra Banda, que se esbatiam no ceu claro, no ceu risonho e roseo da manhã de primavera. No rio embandeiravam-se navios ligeiros e airosos. Velas de faluas passavam, largas, pandas, como monstruosas gaivotas n'um vôo sereno. E do rio sahia uma{119} grande alegria, como um fumo: fazia tremular as bandeiras, doirava mais o sol, percorria toda a cidade, extraía das ruas acordadas um ruido confuso, chiar de carros, pregões, coleras, risadas, que se misturavam, fundiam-se, e lá cima chegavam n'uma voz unica como um rumor de vaga.
—Vamos a vêr quem apanha mais! E a marqueza deixando a sombrinha, desceu por entre as maias, afagando-as com as mãos brancas.—Que lindas são! Como sorriem para mim... Tenho pena de cortal-as.