A sineta tocou para o almoço.

Rodearam a casa e entraram pela estufa, cheia de begonias e de cravos.{121}

Emquanto André se vestia, o marquez perguntou se Violante se não admirava do seu procedimento.

—Ha quantos annos não fica elle em casa? Tresnoitado, entrando muitas vezes quando eu já rodo pelo jardim, escondendo-me d'elle, para fingir ignorar os desatinos, elle dormia e almoçava aqui, fóra d'horas, escondido da Felicia, que resmunga contra elle coisas terriveis, chama-lhe perdido, sustenta que está possesso...

—Uma paixoneta, que trata de curar... Disse-me tambem, que agora ia começar vida nova, talvez fosse para a Quinta dos Limoeiros, para se desaffeiçoar... Isto passa-lhe... Para a semana lá o teremos na mesma vida; theatros, actrizes, ceias...

—E se o pudesses reter em casa! Vê se o divertes... Fal-o sahir comtigo. Agora que vou a Paris podias conseguir que te acompanhasse a visitas, bailes, soirées... Já o quiz interessar com as estampas, mas perguntou-me se eu julgava que havia de passar os dias a vêr bonecos...

O almoço foi alegre. Violante e André fallaram no que era preciso fazer, nas passadeiras a pôr na egreja, nas cadeiras, na disposição dos bancos no adro, á sombra dos velhos pinheiros, até sob o arco dos limoeiros pôr cadeiras, que convidassem os flirts a recolherem-se{122} na discreta arcada. André promptificou-se a tudo fazer; sahiu para o jardim, illuminado pelo sol, cantante nas aguas abundantes dos tanques e cascatas, misterioso nas sombras que o arvoredo formava, rico de côr, verdes diversos, vermelhos, azues, lilazes das flores, mosto fresco das olaias floridas; mas, sob a copa larga e tremente d'um choupo do Canadá, deitou-se e adormeceu profundamente.

O jardim antigo, desenhado por um artista italiano, não tinha as placas relvosas dos parques inglezes e o seu frio alinhamento. Cresciam por toda a parte altas e poderosas arvores, que apertavam a architectura renascença do palacio; por toda a parte cantavam em fontes, em cascatas, em repuxos, aguas claras.

Havia macissos de roseiras que cresciam livremente e se enrolavam aos marmores, aos soclos, iam florescer e perfumar nos collos brancos dos bustos, entre braços finos dos grupos mitologicos, rondas de estações, danças das Horas, cheias de movimento e de belleza. Escadas brancas de balaustradas ligavam as depressões de terreno; e por toda a parte uma grande alegria de flôres e de arvores viçosas, pinheiros, carvalhos, arbustos de folhas variados, jasmineiros trepadeiros, que sorriam, trementes, nos minusculos jasmins, entre a folhagem verde.

Por toda a parte uma exhuberancia de flores,{123} que nasciam em canteiros, amores perfeitos de velludos quentes, pequeninos myosotis, quasi brancos no seu azul virginal; outras que subiam pelas arvores; estrelavam-se clematites, umas roxas, outras brancas, enroscavam-se aos troncos, iam florir na copa larga dos castanheiros. Em pequenas sebes de cana os craveiros inclinavam-se, cravos vermelhos d'um perfume que entontece, cravos brancos, mosqueados de violeta, cravos estranhos como nodoas nas epidermes.