Tudo sorria, tudo gritava, na confusão da manhã clara; estendia-se pelo ceu o sol, batia nos flocos de nuvens que se doiravam, extraindo de toda a terra uma alegria immensa, que subia no fumo, que cantava na viração leve arrastando-se pelas arvores altas, manifestava-se nas folhagens claras, envolvia tudo.
Em grandes placas floresciam as maias e, no inverno, violetas de Parma, d'um lilaz moribundo. Por toda a parte flores, estendendo-se pela terra, ou subindo e perfumando. E as aguas cantavam, cristallinas, corriam, iam beijar nos regos abertos folhas viridentes. Era a Quinta Alegre, o jardim magico. Nos ornatos das janellas e das portas, nos baixos relevos e nas pinturas das salas, reproduziam-se em linhas puras os motivos de volupia e de belleza. Até na capela havia uma exuberancia de vida. Viam-se figuras nuas, como nas Loggias{124} do Vaticano. Os monstros não tinham, como nos ornamentos goticos, uma aparencia terrivel: eram elegantes, d'uma aparencia risonha e as retorcidas caudas terminavam, estilisadas, em caules de flores. A vida era triunfante nos collos sensuaes das mulheres, nos cachos de fructos, romãs abertas de que sahia um riso vermelho, laranjas doiradas, cepas que subiam espalhando-se em ramos com grossas uvas, como a de Corinto, figuras aladas, sensuaes, antes amôres contentes, do que anjos misticos e salvadores.
Havia uma volupia fina, uma delicada sensualidade cada um dos ornatos, como em cada um dos caminhos da Quinta Alegre. A mesma latada verde clara, em que se via a poeira dos cachos que cresciam, se reproduzia e multiplicava nos marmores das sallas e da capella; e os corpos alvos das ninfas, das graças, hamadriadas contentes, dos faunos lascivos levantavam-se e sorriam no marmore das estatuas.
Era alli que todo o anno viviam os marquezes de Runa, salvo um mez na Bretanha, setembro, em alguma praia tranquilla e ensolada, d'onde voltavam, apressados, logo aos primeiros frios, apenas uma pequena paragem em Paris, para as necessarias visitas da marqueza a Redfern, Paquin, e pequenas e especialissimas lojas d'outros fornecedores.{125}
O marquez, Christiano Spinola d'Acciaioli, descendia de duas familias italianas, os marquezes Spinolas e os marquezes d'Acciaioli, que foram duques d'Athenas, de que vieram ramos para Portugal. No seculo XVII fôra um seu tio, Simão de Vasconcellos Acciaioli casar a Florença com a filha unica do marquez d'Acciaioli, para não acabar o nome. E d'ahi os dois ramos conservaram sempre relações intimas, visitas dos portuguezes e italianos, e mesmo o marquez passára parte da sua mocidade em Florença na casa senhorial de seus avós.
Novo, voltára a Portugal e amára com um tranquillo amôr sua primeira mulher D. Estevaninha Henriques, descendente do celebre conde D. Henrique Henriques.
Vira-a por uma manhã de sol a atravessar o pateo branco e calado do seu palacio de Sevilha. E a languidez do seu andar, o seu ar triste, n'aquella casa quasi morta—calado e morto é o tanque esbelto e branco e sobre os arcos apenas touristes passam, silenciosos—impressionavam. Os seus olhos habituaram-se a vêr nas praças, nas ruas ensombradas pelos toldos, a face branca, onde ardiam os grandes olhos pretos de D. Estevaninha, a risca sensual e fina dos labios vermelhos, como num traço de sangue, que a faziam mais pallida.
Conhecendo os duques de Medina, facil lhe foi ajustar o casamento.{126}
Depois d'uma luzida boda, aberta de par em par a Puerta del Pardon da Catedral para a passagem dos convidados entre os quaes a infanta, que representava a Rainha, vieram para Lisboa esconder o seu amôr na Quinta Alegre, cheia de rumores d'aguas e de folhagens que gemiam e riam á passagem da brisa.
Mas aquella casa alegre, onde tudo era voluptuoso, d'uma volupia fina, em que todos se tinham habituado a amar a vida em todas as suas manifestações, parecera hostil ao sentimento hespanhol da doce Estevaninha, na nudez dos corpos, até no desabrochar das flores de marmore, que pareciam tentar.