Certamente, que junto de si, para a amparar e dirigir, estava sempre, rotundo e oleoso, o conego D. Benito, que com ella viera de Sevilha, e na capella risonha e branca constantemente ardiam lumes fumarentos de tochas; certamente, que as missas, as novenas, as trezenas, lausperennes—fôra difficilimo conseguir do Senhor Patriarcha um dia de lausperenne, cada mez, mas conseguira-o a protecção decidida da baronesa d'Angra—todas as festas e macerações da egreja se sucediam na capella clara; as confissões, as comunhões multiplicavam-se; um cilicio de crina fazia, ás sextas-feiras, gemer a branca noiva, mas tudo parecia falso, porque a capella tinha sempre o ar de rir e de tentar, nas volutas floridas dos seus capiteis, nas{127} figuras nuas, que mostravam em cada ruga da pelle, em cada grão de marmore, um desejo impuro que era uma tentação e um escarneo.

E a marqueza não se sentia feliz. Preferia o seu viver austero na sua casa d'Andaluzia, entre paisagens asperas, crueza de sol pelos desolados campos onde as piteiras aguçam as pontas de suas folhas curvas, e as egrejas hespanholas, severas e sem luz; em vão lhe dizia D. Benito que um sátiro confessára Christo a S. Jeronymo, e lhe trouxera flôres para enfeitar o altar do verdadeiro Deus; debalde lhe assegurou o frade affeiçoado ás sombras quietas da quinta, aos tuneis de verdura, onde a pretexto de ler o breviario, nas tardes calmosas de verão, adormecia ecclesiasticamente, que as apparencias nada eram e que a verdade estava em Deus—D. Estevaninha redobrava de supplicios, os jejuns, as penitencias rudes que abalavam o delicado corpo magro e gracil, que palpitava na aproximação do marido, cheia d'angustioso terror e de volupia; e pouco a pouco se definhou, e pela noite fria do Natal, á hora em que na egreja, entre resplendores de cirios e uma chuva de flores, se festeja o Nascimento de Christo, morreu aos gritos, ao dar á luz André.

Para o marquez a morte de D. Estevaninha não foi um desastre dos que abrem no coração um vinco duradoiro.{128}

Gostára d'aquella face triste e habituára-se ao ardôr receoso do corpo fino e doirado da andaluza; mas a casa fina, elegante e pagã, ia tomando aspectos sombrios. Na ante-camara, como nos corredores episcopaes, murmuravam grupos de padres. E atravessaram a Quinta fallando baixo, olhando para as areias dos caminhos, dizendo sempre palavras unctuosas, a querer vender o ceu. Monsenhores de cintas arroxeadas, bispos imponentes, a cruz d'oiro a brilhar no peito, camareiros de S. Santidade, frades que batiam as sandalias n'um ruido surdo, cruzavam-se nas escadas, junctos sahiam, sempre a mesma maneira hypocrita d'olhar as coisas, sempre os mesmos labios mentirosos e distilar frases decoradas. O marquez recolhera-se á bibliotheca onde dispunha a sua collecção de estampas, por que dia a dia se apaixonara mais. Vinham da Italia e da Allemanha e da França e da Inglaterra em rolos, em caixotes, que os agentes enviavam, ás dezenas. Reunira uma preciosa collecção de aguas-fortes de Rembrandt e as gravuras de Dürer; tinha desenhos de Vinci, de Raphael, esboços de Ticiano e de Ribera. Tudo o que fosse arte, desde o balbuciar dos primeiros «primitivos», até á exuberancia formidavel de Rubens, misterios de sombra de Rembrandt, torcionarias figuras de Ribera, suaves santas carnudas de Murillo, extranhas mascaras de angustia ou de grotesco{129} de Goya, tudo o que fosse arte e não tivesse côr o seduzia, proves avant la lettre, exemplares rotos, em que se visse uma mancha bem posta, elle os guardava, catalogando, apenas se distrahindo em passeios pelo parque, grandes voltas, descendo até o extremo da quinta, onde repousava, vendo o multiplo esguicho que saía das duplas flautas de tres aulitridas, n'um gesto elegante de dança nas transparentes tunicas que tornavam mais attrahentes a nudez dos seus corpos.

Com a morte da marqueza, o palacio voltou a ser mais silencioso e mais claro. Parecia que na quinta as aves cantavam mais. Apenas D. Benito ficára, «por amor al niño de la señora marqueza», protestava, mas porque se afeiçoára ás sombras frescas, onde dormia.

André foi crescendo livremente entre os creados e D. Benito. Aos tres annos andava pela quinta, arrancando flôres, quebrando vasos, e interrompendo com gritarias e surpresas as prolongadas séstas do conego.

André foi crescendo livremente, em correrias doidas, traquinas e imprudentes, subindo ás arvores, despindo-se e atirando-se para as bacias de marmore, sempre perseguido pela miss loira e terna, que lhe ensinava inglez.

As feições da mãe reproduziam-se, graciosas, no filho. O pae via, com inquietação o mesmo fallar da mãe, os mesmos olhos tristes, a mesma{130} boca fina, apenas, em André, mais exangue. Teve medo que a intellectualidade desequilibrada da devota tivesse continuado no filho a vida de pavores christãos, e ao conego e á miss recommendou que o deixassem livre, que o fizessem um animal forte e feliz, com poucas resas e pouca grammatica. Quiz que elle aprendesse a ter o Amôr da Vida, que aquelles pulmões respirassem sem medo e sem pecado as grandes rosas que desabrochavam lentamente, petala a petala nos caminhos da quinta. Que visse no canto das aguas um hymno d'alegria, no chilrear dos passaros e no balançar dos ramos uma festa da Natureza, que elle proprio tivesse a alma constantemente em festa.

Assim lhe foi ensinado o pensamento dos antigos. Disse-lhe a alegria imortal das fabulas gregas, os deuses que no vôo rapido desciam do recurvo Olympo e vinham á terra violar os corpos nubeis das filhas dos reis; a dança dos satyros e das faunezas nas clareiras das florestas quietas, as festas da lavoura, as procissões a Céres no tempo em que os trigaes amadurecem, a Dyonisos, quando os cachos são côr de rubim e de esmeralda.

Levou-o ás suas terras do Douro a vêr as vindimas, quando elle tinha sete annos. Pelos montes verdes, onde a vinha ri, rasteira, curvada ao peso dos cachos, bandos de trabalhadores curvados cortam, cantando, os cachos e levantam-se{131} um pouco para os lançar nos cestos; de quando em quando a fileira move-se, forma-se em semi-circulo, desdobrando-se como um exercito n'um movimento largo, agrupam-se para debandar outra vez, com rythmo e graça. E as camisas brancas contrastam com os lenços vermelhos, e riem as faces trigueiras, ha uma grande alegria, cantam as boccas, e o mesmo movimento regular dos bustos que se levantam, dos braços que deitam, n'um movimento largo a uva nos balseiros escuros.