Depois das vindimas, os balseiros cheios despejam-se nas dornas, nos lagares. O vinho ferve, com um aroma forte. E os trabalhadores cantam, como no tempo da Hellada, glorificando a Terra e glorificando os Deuses.

Habituou-o a vêr coisas bellas, a reparar nas minucias das plantas, na finura dos sarmentos, na delicadeza dos coloridos das flôres, quiz que elle amasse as paisagens quietas. E com o pae, André ia contente; não lhe ensinava resas, nem o obrigava a saber lições.

O conego e a miss, por um momento accordados, esquecendo as rivalidades das Egrejas Catholica e Reformada, que os separavam e os traziam n'uma lucta constante, censuravam o marquez por aquella educação original, que seria muito bem cabida n'um gentio, mas não n'um cavalleiro portuguez. E o conego desolava-se:{132}

—É para admirar que a alma da senhora marqueza não tenha ainda apparecido... Que se ella vivesse, isto era tamanha mortificação, que morreria de desgosto.

E miss Lucy, fazendo com a linda boca vermelha um gesto de desdem, terminava n'um tom cortante:

—Improper!

E André ia crescendo. Gostava da miss, porque era linda, tinha uns olhos verdes, côr do mar, e uma pelle fina, branca como as gardenias, e o cabello tão loiro, que André lhe perguntava se aquillo era oiro. Mas não gostava do conego, porque, em o apanhando nas correrias do costume pelo jardim, logo o prendia entre os joelhos e o fazia recitar, durante muito tempo tantos rosarios d'Avés, padrenossos, de credos, salve rainhas, actos de contricção que André chorava no fim. E D. Benito alegrava-se, dizia que era o Diabo que fugia do corpo del niño.

André não se aventurava já a puxar pela batina enodoada do conego, quando elle dormitava no jardim: limitava-se a gritar de longe, e quando D. Benito sobresaltado acordava e voltava para elle a face gorda, André corria a esconder-se no regaço virginal da miss, que se fingia severa:

—Aoh! Naughty boy! Very naughty boy. What did you do to D. Benito?{133}

Mas ria-se das partidas d'André e beijava a face pallida, os olhos tristes.