—Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se—olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!
Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo{157} é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.
Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.
O Diabo continuou:
—Quero a tua alma...
Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas{158} nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada—era tudo de Satan e queria-me!
O pasmo pintou-se na minha cara.
—Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas—floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!
Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi{159} como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...
—Não te dou a minha alma.