—Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...
—Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...
—Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.{160}
—Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.
—Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...
—As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.
—A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!{161}
—Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?
—Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.
—Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...