A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha, á qual os seus parentes, que viviam na provincia, a tinham confiado.

Os amôres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham começado com o aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim do Luxembourg.

Que de encantadores passeios não realizaram Ronquerolle e a linda rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Médicis!

Que de ternas discussões elles não prolongaram percorrendo a Avenida do Observatorio!

Que de alegres pensamentos, não os assaltaram ao atravessarem o arvoredo, por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de marmore, onde ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus projectos, dos seus sonhos de felicidade!

Toda a força da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de vida, perpassava por elles.

Um dia juntaram-se as mãos e apertaram-se com transporte. Depois, Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no{16} proprio dia em que elle, eloquentemente, dissertava sobre os encantos dos amôres platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia á sua habitação e fazia da pobre pequena sua amante.

Desgostos, inquietações e lagrimas tinham já acompanhado essa ligação durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle e de Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as angustias da pobreza, os tormentos da ambição, e as calumnias dos vis e dos preversos.

Agora porém Emilia, conforme avançavam os dias e os mezes, sentia avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por circunstancias imperiosas, a deixar o amante.

Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como Ronquerolle seria envolvido no turbilhão do mundo, que a sua ambição o prenderia completamente, e que ella, pobre flôr colhida de passagem, no caminho da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada á sua dôr, ao seu desespero.