«A tua querida toutinegra d'outros tempos

«Emilia.»

Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio lhe banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre creança companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia á qual jurara eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no seu coração e no seu cerebro pela visão estonteante da marqueza de la Tournelle.

E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr d'outros tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.{99}

Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.

Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa immensa Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.

Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes, Emilia comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido Maximo, e então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se abateram de um só golpe.

Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.

A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo já não me ama, pois bem, só me resta morrêr.

Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e decidiu-se por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao menos uma vez antes de morrer.