Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle sahiu como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto presidencial, e recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o Parlamento ia recomeçar os seus trabalhos. Estava como um homem que após um longo e profundo somno, desperta com a impressão de que tem um rude trabalho a desempenhar, e um grande caminho a percorrer. Experimentado pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle ia entrar na vida politica como um verdadeiro athleta, treinado por violentas luctas.
[VIII ]
Policia dupla
As tribunas da Camara estavam cheias de gente.
Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a Paris, mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias, politicos de varios matizes, alguns más linguas e intriguistas e parentes e amigos dos deputados, de tudo ali havia.
As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel assistir á{117} sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente em regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.
N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e agitavam habilmente os seus leques.
De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros de ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas impressões.
Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade sem procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não podessem passar despercebidas.
A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a acompanhava era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita, madame de Fleurus.