A essa hora a marqueza entrava em casa.
Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a porta da rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada da escadaria abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois tudo voltára á tranquilidade e ao silencio.
—E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como uma Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse ella me acolheria com um sorriso de piedade!{137}
E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza, mordia as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.
No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a importancia da sua desgraça.
A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso «rendez-vous» de amôr.
Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se vagarosamente, lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado, sobre uma poltrona.
Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso republicano.
E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem senão a elle.