Drama sangrento

M.me William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, não podia penetrar nos segredos da vida privada da bella{138} Carlota. Dispunha-se ella a organisar uma espionagem especial e astuciosa, quando uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual era convidada a apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito da policia.

Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o timbre da Prefeitura.

No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo que chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu gabinete, conforme o aviso que lhe enviara, M.me William tomou um trem e fez-se conduzir para a Prefeitura.

Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla ao subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na consciencia uma serie de acções más, que suppunha terem sido descobertas, e achava singular que a policia viesse metter o nariz nos seus negocios.

Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como ella, chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.

Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta ergueu-se rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete, e passou a um gabinete onde esperou apenas um instante.

Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não havia reparado.

—Meu caro senhor, exclamou logo ella,{139} é extraordinario! Ha sem duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não comprehendo que a policia me faça comparecer aqui, obrigando-me a...

E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de morte, lhe fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas palavras.