Mimosa c'rôa de encantos
Te cinge a fronte, mulher!
Prendem-nos a alma teus prantos
Que meiga nos deixas vêr,
És uma estrella radiante,
Uma pérola brilhante,
Um celestial descante
Que nos mitiga o soffrer.Qu'importa no mundo a vida
Quando é vivida sem ti?
É qual florinha pendída{19}
Que o tufão matou assi!
É como a triste saudade
Que nos veda a f'licidade.
No verdor da mocidade
Quando a vida nos sorrí!Tu és uma harpa divina
Que os anjos vem desferir,
És quem meiga nos ensina
A crer, amar, e sentir!
Fallam d'amor teus olhares,
Fallam de amor teus pezares,
Teus innocentes folgares,
Teu deslumbrante sorrir!Mimosa c'rôa d'encantos,
Lindo sol do coração,
Prendem-nos a alma teus prantos
Que n'alma cahir-nos vão!
Mulher tu és n'esta vida
A nossa esperança qu'rida,
A florinha enriquecida
Pelo Auctor da criação!
FIM{20}
{21}
OS PORTUGUEZES EM TANGER
{22}
{23}
Prologo
Que é um prologo? É quasi sempre um antecipado remedio aos achaques dos livros, porque andam sempre de companhia os erros e as desculpas. Eu esforçar-me-hei em desviar-me do caminho trilhado, porém se acharem que dizer não me perdôem.
Escrevi este opusculo com verdade de memorias fieis, sem que a penna, ou o affecto, alterasse o menor accidente. Antes que este pequeno livrinho sahisse dos borrões, algumas pessoas o taxaram de escasso, dizendo, que eu devia de dilatar esta parte da nossa historia com allusões, e passos da Escriptura, que fizessem mais crescido volume;{24} estes compram os livros pelo peso, e não pelo feitio; outras queriam que me valesse do estrepito de vozes novas, a que chamam cultura, deixando a estrada limpa por caminhos fragosos, e trocando com estimação pueril, o que é melhor, pelo que mais se usa.
Mas como não determinei lisongear a gostos estragados, quiz antes com a singelleza da verdade servir ao applauso dos melhores, que á fama popular e errada.{25}
OS PORTUGUEZES EM TANGER.
Oh! ditosos aquelles que poderam
Entre as agudas lanças africanas
Morrer, em quanto fortes sustiveram
A santa Fé nas terras Mauritanas:
De quem feitos illustres se souberam,
De quem ficam memorias soberanas,
De quem se ganha a vida por perdel-a
Doce fazendo a morte as honras d'ella.
CAMÕES—C. VI.—E. 83.ª