Foi no dia 6 de março de 1503.
Apenas rompia a madrugada quando appareceu sobre as colinas dos arredores de Tanger o poder mouro em força de 12:000 cavalleiros e muito maior numero de infantes. Era o proprio rei de Fez que commandava as suas tropas, e que julgava tomar de assalto aquella praça pelo segredo e velocidade com que cahia sobre ella.{26}
A Providencia, porém, ja havia denunciado este facto traiçoeiro aos portuguezes com assás antecipação, para que estivessem prevenidos contra o ataque brutal de feras ainda mais brutas.
Os antigos davam o nome de destino ou fado a esta influencia occulta, absoluta, e irresistivel de Deus sobre a humanidade; os modernos povos chamam-lhe Providencia, expressão mais significativa, mais religiosa, e mais de Deus.
E a providencia nunca deixa de favorecer as boas causas.
Assim já na noute anterior a este dia de recordação e saudade, soube D. João de Menezes, governador de Arzilla, por espias que trazia no campo, os intentos e maquinações d'aquelle rei.
Era-lhe portanto impracticavel avisar a D. Rodrigo de Monsanto, que então governava Tanger, porque estas duas praças distavam uns quarenta kylometros uma da outra, e além d'esta distancia accrescia a impossibilidade de fazer a viagem por terra, por estarem occupados os caminhos por troços do exercito inimigo, e por mar nem uma embarcação havia aprestada para esse fim.
No entretanto reluziam nos arraiaes mouriscos as lanças e os escudos, e atroavam os ares os sons guerreiros das trombetas e outros instrumentos barbarescos.
Parecia que os mouros preparavam nos seus{27} arraiaes em canticos e folgares mais uma corôa de gloria para os portuguezes.