Comtudo os tempos iam durando, e nada ha peior do que o tempo para todos os Laws. Se as cousas não andassem! Andavam, porém, e rapidamente: com aquella velocidade progressiva da machina capitalista, prolifica por meio dos juros, amortisações, capitalisações. Dois annos tinham bastado para progredir d’este modo: (V. Coll. de Contas, 10 de setembro de 36)
| 1834 | 1836 | ||
|---|---|---|---|
| Divida externa capital | 29:400 | 40:398 | |
| » interna » | 14:895 | 20:748 | |
| Somma | 44:295 | 61:146 | |
| Accrescimos—capital | 16:851 | ||
| juros | 313 | ||
| Divida sem juro: | |||
| Papel moeda | 3:500 | 3:115 | |
| Diversos | 6:586 | 6:852 | |
| Encargos totaes da divida: | juros | 2:334 | |
| amort. | 627 | ||
| Divida mansa | |||
| (Padrões, atrazados, etc.) | 17:013 | ||
E n’esses dois annos decorridos, estava consumido, além do mais, o melhor dos bens nacionaes. Ardia tudo n’um fervor de appetite que já para muitos começava a infundir receios de uma indigestão tremenda. Dois annos de paz tinham custado quasi tanto como seis annos de guerra: muito mais, se se contar o que o Thesouro não pagou. A guerra fôra cara, mas a victoria era ruinosa. No meiado do verão (14 de julho de 36) pegou fogo no thesouro. Já tudo ardia, lá dentro d’esse palacio onde á inquisição religiosa succedera a inquisição agiota, com as suas tenazes de papel timbrado, os seus troncos de juros, retornos, commissões, premios; com a sua algaravia bancaria, herdeira do historico latim das sentenças singulares ... Qual dos desvarios dos homens valerá mais?
Ardeu em verdadeiro lume o Thesouro em julho; mas já vinha ardendo havia muito em lepra que o roía de torpezas, e n’um vasio que o amargurava de contracções, como as dos estomagos famintos. O povo dizia que o fogo fôra posto, para saldar muitas contas; mas o ministro, Pombal da moderna finança, Law portuguez, iniciador da nação nova nos segredos do capitalismo; o ministro, como o velho marquez no seu terramoto, mandou pagar o semestre no dia seguinte. Ardia o Thesouro? Agua ao fogo, e paguem!—traducção do «enterrar dos mortos e curar dos vivos». Ardia o Thesouro! Boas, francas labaredas, impellidas por uma ventania fresca, subiam crepitantes, levantando no ar os farrapos da papelada. Durou doze horas o incendio, do meio-dia á meia noite. Muitas horas mais, muitos dias, bastantes annos, ia durar outro incendio, acceso pelas ambições mal soffridas, pelas illusões crentes, pelo protesto contra o systema da veniaga e da delapidação, contra o regabofe que a uns enchia de coleras e a muitos mais de invejas. Tambem tinham soffrido: tambem queriam gozar!
Em julho ardeu o Thesouro; em setembro rebentou a revolução.
4.—A FAMILIA DOS POLITICOS
Mas antes de setembro e da nova face que as cousas tomam n’essa data, falta-nos ainda estudar mais de um dos lados da nação, no seu primeiro periodo liberal ...
Além das causas anteriores conhecidas, a propria victoria do novo regime concorria mais ainda para que Portugal fosse uma nação de empregados publicos. A suppressão dos conventos, o resfriamento dos sentimentos religiosos, diminuiam a offerta e tambem a procura de lugares na Egreja. As causas economicas anteriores já tinham, póde dizer-se, supprimido a navegação; as tentativas industriaes manufactureiras do marquez de Pombal não tinham vingado; e a recente crise de oito annos, rematada por um terramoto das velhas instituições sociaes, viera talar os campos, arruinar a agricultura. Portugal achava-se, pois, forçado a substituir por um communismo burocratico o extincto communismo monastico. Durante a guerra, a nação fôra um exercito; agora, licenceadas as tropas e supprimidos os soldos, de que viveriam os soldados? É verdade que o governo podia ter feito como se fazia outr’ora em Roma; mas a distribuição das terras conquistadas não podia ter lugar, porque os capitães queriam-n’as para si, por grosso. Força era portanto optar por outra saída: e qual, senão os empregos publicos?
Por sobre esta necessidade social appareciam as necessidades politicas. Em que peze ás seccas affirmações doutrinarias e ás chimeras dos philosophos, todas as nações consistem realmente na aggregação de clientelas para as quaes um chefe é ao mesmo tempo um instrumento, um representante e um defensor. Essa primeira fórma da sociedade romana exprimia uma verdade natural que os systemas encobrem mal.[8] Quando, mais tarde, se imagina subordinar a doutrinas abstractas a existencia dos povos, observa-se que os factos naturaes espontaneos, reagindo, tiram a realidade ás formulas. Assim, nas velhas monarchias havia chefes e partidos, cujo poder era maior do que o do rei; assim, nos governos formalistas liberaes, o poder pessoal dos chefes politicos, apoiado sobre instrumentos como as eleições, a imprensa, etc., é a força positiva que impera sophismando uma constituição, a qual os chefes confessam e dizem respeitar por um sentimento de conveniencia e de pudor publico, mais ou menos consciente.
Quando a machina social se desorganisa, apparecendo o que se chama revolução ou crise, vêem-se mais ao vivo como as cousas são na realidade. Era isto o que succedia entre nós, nos tempos que agora atravessamos. Constituiam-se as clientelas; e como a sociedade era ainda quasi um acampamento assente sobre um territorio desolado; como não havia outros meios de vida patentes a numerosas classes desorganisadas, essas clientelas eram o que podiam ser: burocraticas e militares.