Por parte dos Miguelistas

Valor da divida que contrahiram 4:443
Id. dos vencimentos e juros não pagos durante o seu governo 8:083
Id. dos dons voluntarios e confiscos ?

Setenta, oitenta, cem mil contos, custou decerto á economia da nação a guerra que terminára sem conseguir acabar ainda com a crise, porque á lucta entre o velho e o novo Portugal iam succeder as luctas dos partidos liberaes. Secco, devastado estava o reino com os vomitos da cholera, as agonias da fome gemendo por todo elle: e da mesma fórma o Thesouro, imagem viva do paiz, nú e vasio, gemia tambem com a lepra da corrupção, da agiotagem, do puro roubo. O anno de 33-4 dera apenas tres mil contos para uma despeza de treze mil;[5] e o orçamento de 35-6 apresentava um deficit de mais de quatro mil,[6] com receitas exageradas.

Começaram a pronunciar-se vivamente os clamores contra a sociedade Mendizabal-Carvalho e suas combinações em que tantos lucravam agios, commissões, premios, bonus. Mendizabal furava pelo meio das bolsas de Paris e Londres, dando luvas aos Rothschilds, aos Ricardos, aos Foulds, aos Oppenheims, para pôrem o seu nome nos annuncios das emissões portuguezas. (A dynastia e a revol. de set. anon.) Carvalho furava pelo meio da selva das intrigas, como uma estrella caudata de ouro, fechando os olhos: era dinheiro inglez! O seu processo evitava que a causa se despopularisasse exigindo impostos, contentava o povo, pagava tudo em dia, e dava ainda para vencer resistencias que as alfaias dos conventos e os bens nacionaes não satisfaziam. Era uma chuva de libras esterlinas: quem viesse depois, que se arranjasse! Não se podia opprimir o povo, nem ser muito exigente com um funccionalismo inventado assim, do pé para a mão, para pagar os serviços á causa. A decima rendia apenas oitocentos contos; e até 1840 nem um dos recebedores geraes nomeados em 34 tinha prestado contas: uns fugiam, outros escondiam-se; e depois, ainda em vão o Diario, em 39, publicava a lista dos remissos.

O ministro, indifferente, compassivo, passa-culpas, deixava ir, considerando que o periodo era transitorio. Afinal, chegára o momento da desforra: não tinham sido muitos os annos de amargura? Mas as pretenções da opposição, exigindo limpeza de mãos ao governo, e ameaçando com essa necessaria banca-rota onde acabam as viagens de todos os Laws, veio transtornar a placidez dos dias felizes. Carvalho caiu (27 de maio de 35) e no seu logar entrou o sincero Campos, mais escrupuloso, menos atilado. Impellido para além do que a prudencia mandava, o ministro expôz, em lagrimas, o triste sudario do Thesouro. Chorar é bom; desacreditar o adversario póde não ser mau; mas que remedio? Diz o povo que tristezas não pagam dividas. Campos tinha só lagrimas e invectivas: caiu logo. (15 de julho) O Banco e a agiotagem em peso exigiam a entrada de Rodrigo e de Silva Carvalho. Saldanha, na presidencia, que havia de fazer? Deitou ao mar o lastro radical do gabinete, admittiu os homens habeis em finanças. Estava imminente a banca-rota: não havia um real, e os da opposição não mereciam conceito aos argentarios. (Carnota, Memor. of Sald.) O marechal, entre os dois partidos, com a sua vaidade ingenua, já se acreditava um arbitro—quasi um rei. Não o tinham convidado para monarcha no Rio Grande? Não escrevia elle mais tarde, já depois de ter sido apenas o méro instrumento cabralista, «estou persuadido que seria um bom chefe n’um Estado qualquer»? (V. carta de 69, em Carnota, ibid.) Deitou fóra Loulé e Campos; metteu Rodrigo e Silva Carvalho.

Via-se que o Law portuguez, liberal em todos os sentidos e para com todos, era indispensavel. Endividamo-nos: que tem isso? O futuro a Deus pertence—dizem o turco e o portuguez. Nação de morgados hypothecados, Portugal sentia-se bem empenhando o futuro. As dividas cresciam; pagavam-se os juros com dividas novas; e assim se iam pedindo, consolidando e pagando.—Não é o que ainda hoje[7] succede?—Só a opposição clamava, e como a intriga era muita, apezar do fiasco do verão, Campos voltou ao governo no inverno. (18 de novembro)

Desorientaram-se as cousas e o rival expulso esfregava as mãos satisfeito: bem o dizia! Utopistas os que pretendiam viver dos recursos d’uma casa arruinada! Pois não era evidentemente melhor aproveitar do inglez que nos dava o que lhe pediamos? Era dinheiro que vinha para cá. Tinhamol-o? Não. Custava muito caro? Deixal-o custar. Quando não houvesse nada para os juros, não se pagavam: eis ahi está! Quem perdia? O paiz? não; o inglez. Carvalho, que assim pensava, não deixava de ter rasão; mas a hypocrisia politica impedia-lhe que o dissesse. D’ahi provinha o ser batido pelas sonoras palavras dos adversarios.

Como os factos, porém, o vingaram! A desordem continuava a ser a mesma, aggravada com a suspensão dos pagamentos. Os mercenarios clamavam pelos soldos, suspirando por voltar para casa. Já conformados com a falta das terras promettidas, pediam apenas um dinheiro que não havia. Davam-se-lhes letras sobre Inglaterra, e empregados do thesouro, que já tinham aprendido muito, iam a bordo descontar-lh’as a dez por cento e mais. (Shaw, Letters) Tudo jogava: a vida era uma sorte. Farrobo fôra cudilhado pela lei do papel-moeda. Faziam-se e desfaziam-se as riquezas como nuvens passageiras. Bens de sacristão, cantando vêm, cantando vão!

O rigido Campos não era homem para tal gente, nem para tal epocha. Levantava-se contra elle um clamor unanime dos prestamistas sem juros, dos empregados sem vencimentos, dos soldados sem pret.—«Em que se parece o sr. Campos com um cometa? Em ser barbato e caudato. E em que mais? Nos resultados influentes. O do outro dia deixou-nos o frio, e este a fome». (Bandeira, Artilheiro, n.º 19) Maldito governo que não paga! «Isso é falta de paciencia ... O sr. Campos, quando entrou para o thesouro, que achou lá? Pulgas!» (Ibid.) Mas d’esses bichos, Carvalho fazia libras, e por isso o foram chamar outra vez. (20 de abril de 36) Era unico na sua especie.