«Para um homem ser ministro de Estado basta que um batalhão, de mãos dadas com um periodico, o queiram». (Bandeira, Artilheiro, n.º 25) Sociedades como a portugueza, lançadas de chofre n’uma vida nova, sem precedentes nem raizes na historia immediata; povos de um temperamento violento ou ardente, sem instrucção nem riqueza: estão condemnados a um revolvêr desordenado, em que idéas, ou falsas ou mal concebidas, se combinam com os instinctos intimos que a anarchia traz á flôr da realidade. Entre os debates de doutrinas extravagantes e as luctas dos bandos armados, vae pouco a pouco effectuando-se, de um modo naturalistamente espontaneo, a reconstituição do corpo social desorganisado. É como quando o furacão levanta e ennovela o pó das estradas que se agita, mistura-se, e gradualmente vae outra vez assentando.
Nada nos deve pois admirar o que succedeu em Portugal: outrotanto succede ainda hoje á Grecia e aos paizes do Oriente slavo; e o mesmo que nos aconteceu a nós, foi o que se deu na Italia e na visinha Hespanha. Os homens da Europa central, francezes, inglezes, allemães, belgas, filhos de sociedades differentes, não podiam comprehender, nem o nosso bandidismo, nem o systema das nossas clientelas ou partidos, nem o nosso communismo burocratico, nem a nossa furia politica, paixão dominante que a occasião, o interesse, e a doutrina da anarchia individualista concorriam para fomentar. D’esta incomprehensão do caracter da sociedade pelos extrangeiros que mandavam n’um paço occupado por uma rainha quasi extrangeira, veiu a principal causa das reacções e revoluções que alagaram o paiz em sangue, consummando a obra de uma ruina já avançada. Dir-se-ha porém que, se tal motivo não surgisse, a vida portugueza de 34 a 51 teria sido uma paz? Não, nunca. Haveria apenas um elemento menos de guerra. Os diversos bandos, com seus chefes e clientes, seus principios e interesses, seus programmas e guerrilhas, teriam combatido da mesma fórma entre si, até que o cansaço universal impuzesse uma paz que nenhuma clientela podia impôr com a victoria, por falta de força bastante para a ganhar.
O motivo de uma tal fraqueza está nas condições necessarias de uma sociedade no caso da nossa. Os debates e as luctas dão-se entre a minoria minima dos politicos, advogados ou militares, com discursos ou correrias, formulas ou guerrilhas.
Esta qualidade de homens é quasi a unica que se interessa nos negocios publicos; occupando todos os cargos da administração, constitue o que chamam opinião, domina as eleições e toma assento nas côrtes. D’ella se compõem os poderes executivo e legislativo, sendo ao mesmo tempo governo e povo. O numero d’estes politicos não é consideravel, mas é demasiado relativamente ao magro orçamento de Portugal. (Lasterie, Portugal etc., na Revue des deux mond. 1841)
«Cada governamental, dizia o conde da Taipa, é um artigo da CARTA.» E se, com effeito, o orçamento era magro de mais para sustentar os politicos; se o communismo burocratico era bem mais difficil de manter do que o monastico, pois os pedintes não se contentavam com o caldo e a brôa das portarias: é tambem facto que os homens de alguma cousa haviam de comer. E se não havia outra occupação para onde se voltassem?
Uma nação de empregados
É Portugal? Certamente.
Até D. Miguel do throno
De D. Maria é pretendente.