De tal modo imperava sobre todos; e como, sem preconceitos doutrinarios, dizia sempre que sim, cortando uma situação difficil com um dito, quando não era possivel um emprego, todos rodeavam o rei novo, acclamado pela mesquinhez universal. Elle era a unica das velhas arvores altos que o tufão liberal deixára de pé; e, vendo sobranceiro as cabeças rasteiras que o vento não dobrara, porque a insignificancia é resistente, tinha com a sua ironia desdenhosa o contrario das coleras: uma compaixão protectora pela sua côrte reles. Costa Cabral fôra a imagem da Antipathia; Rodrigo era a mascara do Desprezo. Já edoso quando a victoria o coroava, como acompanhara a Liberdade desde 26 assistindo-lhe á nascença e á vida, conhecia-a bem por dentro, sabia como era feita. Auscultara muito a Urna. Tomara o pulso á Opinião. E, medico perspicaz, vendo que a molestia era organica, só receitava pro forma, para satisfação da familia, certo de que todos os medicamentos eram vãos. No decurso da vida de antigo boticario politico, experimentara já o effeito de todas as tisanas e simples: tambem tivera nos Brandões os seus bandidos, tambem fizera eleições como os mais. Mas levara um cudilho do Costa-Cabral, o atrevido!—levara um cudilho, elle o homem de outra geração. A Liberdade pedia sem duvida tratamento diverso. Diz-se que preferiu comprar os deputados como as casas: depois de feitos.

A sua astucia tornava-o popular, as suas manhas celebre. O povo chamava-lhe rapoza. Raros o odiavam—só algum caturra como Herculano: elle, tambem, encolhia os hombros, sorria. Lá por dentro é natural que respeitasse; e quem sabe se o mundo em 51 fosse outro, se elle tambem não seria diverso? Os homens, o tempo, a doutrina, de mãos dadas, porém, concorriam para tornar opportuna a efflorescencia do scepticismo, o reinado da ironia, a victoria de um cesarismo que em uma nação de empregados só podia ser burocratico. Rodrigo era um Morny de secretaria, e no imperio portuguez, Saldanha, o Saint-Arnaud, tinha um papel secundario, de parada apenas.

Valia muito pouco; estava já velho e em demasia desacreditado, o marechal, para poder alguma cousa: vivia á sombra da authoridade consolidada do politico. E Rodrigo tinha de pessoalmente representar scenas de comedia para lhe acudir, porque esse vulto era indispensavel aos seus planos: elle bem subia que a nebulosa Liberdade era uma illusão fugaz, que o culto da chimera exigia sombras por sacerdotes, e que o mais conveniente e pratico para marear o barco portuguez era fazer do governo uma peça de theatro. O povo ouviria os actores gravemente mascarados dizer os seus papeis, olharia o scenario: bastava. A sinceridade estava condemnada por vinte ou trinta annos de tentativas varias e diversas, qual d’ellas mais infeliz. Rodrigo era o melhor actor do seu tempo. A edade, o trajo antigo, o aspecto desembargatorio não o deixavam confundir com os peralvilhos moços. O povo como que via n’essa face barbeada, com os collarinhos desafiando as orelhas, um collete grande e antigo, a sobrecasaca de amplas abas pendentes, as calças de ganga amarella classica, uma imagem de outros tempos, chorados sempre, apezar de tudo! Os infortunios dão por via de regra aos povos, e principalmente ao portuguez apathico, miragens doiradas do passado, dos bons dias fugidos! Violento, o portuguez não tem o temperamento revolucionario, nem conservador: tem o genio d’onde sahiu o sebastianismo.

O aspecto antigo do ministro era mais um motivo de exito para o actor perante o seu publico. As galerias ouviam-no; e a sua gravidade, a sua mansidão, seduziam. Nos seus bancos, os pares, os deputados como comparsas nos bastidores, sublinhavam as phrases do eximio actor, confessando o talento, applaudindo a arte irresistivel. Assim os odios se fundiam em risos, assim o riso como uma esponja lavava as nodoas, assim esquecidos os crimes tão benignamente perdoados, os réus passavam a sentir-se outros, puros, e uma vida nova saía dos labios ironicos, nunca abertos para o sarcasmo nem para a accusação.

Por isso, quando o conde de Thomar, o velho rival outr’ora (42) vencedor agora vencido para sempre, tornou á camara como um dos sete dormentes acordado, e quiz ainda entrar no combate com as suas antigas armas já embotadas, reptando o marechal, expondo o sudario das suas traições: Rodrigo com a bonhomia mansa e a gravidade affectada proprias do palco, levantou-se para defender o homem, presidente que fardava a situação, mas sem o exaltar, para o não perder.—«Para se enriquecer, Saldanha!» dizia com lagrimas sentimentaes na voz; Saldanha tão boa-pessoa!—«E entre todos os incentivos que imperam no coração do homem, só o digno par achou essa da mais indigna vileza, para o attribuir ao seu adversario?» Pausa: com ar concentradamente triste, soltava logo o dardo: «E quem d’este modo argúe, como poderá ser julgado?» (Disc. de 14 de fev. 1854) O ferro tinha dois gumes: um feria em cheio o indiciado de roubos; o outro abria no coração de todos a porta da contrição, demonstrando a urgencia de pôr ponto a um systema de recriminações crueis que os desacreditavam a todos perante as platéas. As roupas sujas lavam-se em familia: não é proprio fazel-o á vista do publico. Decóro, senhores! Tape-se a bocca a esse villão importuno que desconhece as regras da boa sociedade e nos compromette. Cada qual sabe de si e Deus de todos: para que o ha de tambem saber o povo? Esperaes que depois d’isso nos respeitará mais e se deixará governar melhor?

Taes eram as conversas dos bastidores que se exprimiam na scena em estylo mais solemne. O ministro affligira-se muito, ao ouvir o digno par (com uma cortezia) dizer que o duque de Saldanha havia descido ao campo da revolta porque tinha fome e queria enriquecer-se.—Que temeridade, meu Deus! Pois seria crivel tão grande infamia? Para enriquecer-se o duque de Saldanha!—Pausa: que ao mesmo tempo desacreditava o proprio duque, e o defendia. E depois, n’um tom importante e grave de homem d’Estado: «Esta phrase proferida pelo digno par affigura-se-me de grande impropriedade, filha de notavel hallucinação, e que póde ter consequencias pessimas», perfidamente sublinhadas. (Disc. de 14 e 16 de fev. de 1854)

Chegara a Rodrigo a hora de desforrar o antigo beijo de 40 na face do seu émulo d’então. Os tempos, afinal, tinham trabalhado, preparando pouco a pouco ao vencedor, por uma dissolução evolutiva das fórmulas successivas de Liberdade, o throno de cynismo sobre que reinava. A sinceridade batalhara com armas, depois com improperios, sem conseguir vencer, conseguindo apenas matar na vida, na fé, no juizo, ou no caracter, os varios combatentes. A arena estava cheia de mortos, e os espectadores saciados de espectaculo. Depois de tragedias de sangue, houvera melodramas de phrases: agora vinha o entremez final. Depois do terramoto de 34 que havia de restaurar a nação, as guerras e os debates, a Espada e a Urna de mãos dadas tinham consumado a ruina. Todos choravam frio e fome. A penuria é má conselheira. Uma nação exangue póde ter coleras epilepticas—tiveramol-as em 28—mas não é capaz de força. Por isso a Liberdade acaba entre nós n’uma Regeneração, em vez de acabar, á franceza, n’um Imperio. Mas, cá e lá, o que vence é um cesarismo, militar ou burocratico, segundo as condições dos paizes; um cesarismo que além nega, e aqui apenas sophisma as instituições; um cesarismo que além opprime e corrompe, e aqui intriga corrompendo tambem; um cesarismo que em ambas as nações vence, porque a ambas dá, em vez de fórmulas, pão.

Rodrigo era um Morny, já se disse; Saldanha um Saint-Arnaud, peninsular e catholico; o moço Fontes, iniciado como Rouher, viria a ser o futuro vice-monarcha. Mas Napoleão, rei, imperador, cesar, quem era? D. Maria II? Não; a nobre, infeliz senhora chegava opportunamente ao fim (15 de nov. de 53) da sua vida atribulada. A sua coragem viril, o seu levantado caracter, as suas virtudes, a sua intelligencia forte e recta faziam d’ella o contrario dos Cesares, por necessidade scepticos. A rainha era a sinceridade viva. Tambem concebera de certo modo o liberalismo; e, como tinha no temperamento a virilidade, no coração a virtude, na imaginação as licções aprendidas n’um berço coroado, empenhou-se na lucta, lançou mais de uma vez a corôa na balança—lançaria a espada se podesse usar-a!—para fazer vingar o seu liberalismo. E se não tivesse sido tão pessoalmente virtuosa, é de crêr que, apesar do auxilio repetido dos extrangeiros que depois de a sentarem no throno mais de uma vez a sustentaram n’elle, é de crêr, dizemos, que tivesse tido uma sorte diversa.

D. Maria II, pois, não tinha o temperamento cesareo. Talvez que tambem a edade e as licções do tempo a viessem a converter á apathia, mas essa prova foi desnecessaria porque morreu a proposito, deixando o throno ao nosso Napoleão III—D. Fernando: humano, viveur, sceptico, artista, cheio de intelligencia e de humour, vasio de fórmulas, vasio de crenças, moderno, e bom. Como um Cesar, desceu do paço e affectando um aristocratico plebeismo, passeava a pé fumando o seu charuto ...

Não era uma positiva regeneração, oh manes de D. João VI chocalhado no seu coche doirado, com a escolta de cavallarias chouteando? Eis a verdadeira liberdade! eis o reinado da paz e da fartura!