Se addicionarmos a divida mansa, e compararmos o total com a divida de 28, veremos que a Liberdade e os seus ensaios custaram ao Thesouro 58:500 contos, afóra os bens nacionaes vendidos ou queimados, sem com isso melhorar a situação economica do reino, segundo já deixamos patente.

A conversão propunha-se regularisar um estado provadamente intoleravel. Abolindo as verbas de amortisação o reduzindo as de juro, que no meiado de 52 attingiam sommadas 3:491 contos (Ibid.), limitava os encargos á somma acima indicada. Alliviado assim o Thesouro, seria fiel aos seus compromissos? Eis o que se não acreditava. Tinha-se assistido a tantos pontos, a tantas capitalisações successivas e todas apregoadas como decisivas e finaes, que os crédores, de certo bem dispostos a receber menos, mas sequer alguma cousa, não viam com bons olhos o ministro moço e audaz. Choravam-se as victimas de mais uma espoliação: eram 9:511 particulares e 519 corporações, os portadores da divida interna. (Ribeiro, Divida) Aos que defendiam os actos do governo, recordavam os crédores a famosa instituição do Credito-nacional, de 1841, para «se porem os pagamentos em dia»; as decimas lançadas nos juros; as metades, a que tinham sido reduzidas as classes inactivas em 1844; toda a serie de miseraveis banca-rotas que desde 35 se tinham repetido com uma constancia invencivel.


Enganavam-se, porém, os accusadores. Os tempos tinham mudado, em Portugal e em toda a parte. Chegara a saciedade de liberalismo e as attenções voltavam-se para um norte differente das antigas chimeras doutrinarias. Reconhecia-se conquistada a Liberdade no seio do scepticismo. Custára muito? Ao reino, é impossivel dizer quanto; ao Thesouro, cincoenta, sessenta, oitenta mil contos? Ponto, sobre essa historia antiga! De joelhos, perante o deus Fomento! Com esse culto novo podia gastar-se á larga, á farta, porque á maneira do verdadeiro Deus (ainda por habito ou hypocrisia se era christão, mas liberal) o Deus novo pagaria com muitos mil os emprestimos que se lhe faziam. Caminhos de ferro! caminhos de ferro! Circulação, liberdade respiratoria para o corpo economico! Vida nova! E assim o moço ministro engenheiro, introduzido na scena pelo seu patrono Rodrigo, entrava pela mão do scepticismo velho prégando a religião nova. Patrono e cliente, mestre e discipulo, pae e filho, eram o mesmo em dois corpos, um representando a negação do passado, o outro as affirmações do presente.

Reformaram-se as pautas setembristas n’um sentido mais livre; começava a picareta a abrir as trincheiras do caminho de ferro; fundia-se o historico Terreiro com as Sete-casas, estabelecendo-se um octroi; reformavam-se os correios, adoptando-se a estampilha, symbolo da mobilisação universal idealisada no comboyo correndo como o vento: um comboyo que era ainda apenas sonho e um desejo! Em vez de uma sociedade agitada por partidos e doutrinas, aspirava-se para uma agitação de gozo, de riqueza, de utilidade positiva.

Em 49 houvera uma exposição de Industria em Lisboa, mas não era o fabrico o enlevo da idéa nova: era o movimento. O pombalismo acabara com os setembristas, e as tendencias economicas eram levadas agora n’um caminho diverso. Já as nações se não olhavam como organismos autónomos, porque o cosmopolitismo infiltrara-se nas doutrinas. O cabralismo fôra um precursor da edade nova, mas errava imaginando ainda, á antiga, que para a realisar fosse necessaria a reconstituição de uma classe aristocratica. Assim acontecera em França a Luis-Philippe. Mas o socialismo tambem reagira contra o governo dos ricos, e o segundo imperio francez e a Regeneração portugueza, egualmente democratas, realisavam por outras fórmas, com outros meios, o pensamento capital dos regimes precedentes. O imposto de repartição, motivo da queda dos Cabraes em 46, servia agora para recompôr esse lado da machina administrativa.

Cheias as vélas com um vento de esperanças aladas, o barco da Regeneração vogava, com Fontes, pimpão, moço e janota, ao leme; Rodrigo, perspicaz, de gageiro á prôa; Saldanha na camara, fardado, solemne, falando ás visitas. Nem uma nuvem no horisonte? Nada, apenas o sapatear da agua no costado, as ondas pequenas, mansas, dos crédores de casa, agiotas e pensionistas, clamando contra a conversão. Deixar: larga! Mas, viajando, acossou-os a vaga mais temivel dos crédores de Londres. Escarmentados pela conversão de 40, depois pela de 45, não acreditavam na de 52. O caso era grave, porque sem dinheiro londrino para que serviria o ministerio creado ás obras-publicas? (30 de agosto de 52) Com a fallencia aberta, riscados da sociedade das nações-de-bem inscriptas na biblia do Stock-exchange, de que valiam os talentos e desejos dos estadistas novos? Inuteis as cartas, Fontes preparou a mala e saíu para Londres em dezembro de 55, embaixador perante o congresso soberano do capitalismo londrino.

Vinte annos Palmella implorara em favor da Liberdade a protecção dos verdadeiros monarchas. Agora ia Fontes confessar as culpas, protestar o arrependimento, pedir o perdão, e prometter um abandono formal de theorias tão funestas. O filho prodigo emendar-se-hia: tinham sido verduras da infancia!

A França de Napoleão III fizera pazes com a Inglaterra, agora sua alliada para a guerra (da Crimêa), para a exploração bancaria das nações pupillas. Em Londres, Fontes achou Thornton, Fould em Paris, promptos a annuir á conversão de 52, a restituir o credito a Portugal, a dar-lhe os dezeseis mil contos que pedia, mas sob condições em verdade onerosas, e mais graves por que hypothecavam o futuro. Fontes annuia, annuiu a tudo. Querem que se lhes dê em titulos differidos o que a conversão lhes tira? Não ha duvida. Querem os banqueiros (Thornton, Fould) o direito de preferencia em todos os emprestimos futuros? De accordo. Querem os engenheiros (do Credit mobilier, de Morny-Pereire, sob a protecção de Napoleão) a preferencia nos contractos de construcção de obras, e desde já estudos rendosos? Tambem vol-o dou; mas cotemme os fundos, deem-me dezeseis mil contos! (V. Roma, Reflex. sobre a questão financ.) É necessario hypothecar o futuro para liquidar o passado? Faça-se. Faça-se tudo, acceite-se tudo, mas haja dinheiro e caminhos de ferro.

Regressado de Londres, os farrapos dos velhos partidos caíram sobre o homem na sessão de 56. As antigas denominações tinham acabado, e havia contra os regeneradores o amalgama que se chamou historico, e que com effeito o era, sombra historica sem vida, presidido por um grave, mudo, impassivel: Loulé. Os restos do cartismo acabado protestavam tambem: Roma no Jornal do Commercio, Avila e Carlos-Bento na camara. Na imprensa defendiam o ministro Lobo-d’Avila e José-Estevão na Revolução; na camara defendia-se elle a si proprio, com a verbosidade que parecia eloquencia por ser nova a rhetorica empregada: melhoramentos, fomento, etc. em vez de principios, abobadas da sala (que é envidraçada), etc. Eram vivos o ataque e a defeza; e tamanha a temeridade do ministro-Esau que cedera tudo por um emprestimo, tamanha a precipitação juvenil com que nos arrastava, á velocidade d’um expresso, na estrada do fomento, que a apathia portugueza historica derrubou-o. (6 de junho de 1856) Caiu um ministerio; mas a Regeneração não caíu, nem podia, porque estava na necessidade das cousas. Como um moderador passivo apenas, levanta-se perante o grupo dos audazes, o grupo dos historicos presidido por Loulé; mas nem já o setembrismo, nem politica alguma sui generis o inspirava.