3.—OS HISTORICOS

O novo governo, successor da Regeneração em 6 de junho de 56, vinha, como dissemos, fadado para ser apenas um moderador do enthusiasmo, da precipitação, da largueza-de-mãos dos predecessores. Já despidas as togas democraticas pelos restantes do antigo setembrismo, já trocado o nome de progressistas pelo nome inconscientemente eloquente de historicos, a nova gente nada significava como affirmação no poder. A sua inconsistencia prova-se na constante mudança do pessoal governativo, durante os tres annos escassos da sua gerencia. Eram todos homens bons, ronceiros, pacatos, liberaes sempre, ainda que isto nada já quizesse dizer. Como que sombras de outras éras, vinham presididos por uma sombra ambulante, muda e nobre ...

D. Pedro V tomara posse do governo (16 de setembro de 55), e o temperamento melancholico e pessimista do novo rei preferia esta gente antiga aos regeneradores modernos e moços, cujo materialismo não agradava á metaphysica regia. Somnambulos, rei e ministro, ambos alheios á indole dos tempos novos, ambos sem pensamento nem força para os condemnarem, iam caminhando, ou antes deixando a nau do Estado seguir á mercê da direcção da corrente. Mas desde que o estabelecimento do imperio em França restaurára ahi as influencias ultramontanas, depois de as desillusões de 48 terem convertido Pio IX ao jesuitismo, a esperança de reconquistar para o catholicismo puro todas as nações latinas abaladas pela Liberdade impia, inspirou uma politica activa. Habilmente sentiam os novos apostolos que não eram missionarios nem sermões o meio adequado á novissima propaganda. As gerações passadas ou actuaes tinham-se perdido ou eram inconvertiveis: restava appellar para a educação da infancia. E de que modo? Repetindo o que no seculo XVI se fizera?[40] Não; seria temerario. Não se podendo pretender desde logo ao monopolio da instrucção official, o caminho indicado era o da Caridade e o da Liberdade.

As irmans de S. Vicente-de-Paulo, soldados piedosos e humildes do exercito apostolico; as irmans-da-Caridade que a guerra da Crimêa vira nos hospitaes e campos de batalha, tão corajosas como dedicadas, eram quem devia vir a Portugal ensinar a infancia desvalida nos asylos creados pelas senhoras ricas da fidalguia. O ultramontanismo é nos nossos tempos eminentemente aristocratico. Rodrigo, perspicaz e sceptico, jámais annuiu á vinda; mas agora o rei catholico e neo-romantico, amante de uma esposa beata, e o ministro com o seu genio principesco e molle, que mal podiam achar na introducção d’essas mulheres piedosas, tão celebradas na sua caridade, tão simples na sua humildade obscura? Pois não valia mais que as creanças tivessem um amparo protector? Por toda a parte as fidalgas cantavam o elogio das pobres irmans-da-Caridade, tão boas, tão santas, tão bonitas nos seus babitos negros, com a alva touca de linho de abas soltas como azas de pombas! Este renascimento de piedade religiosa nada tinha, porém, de commum com a antiga religião vencida em 34. Era aristocratico, a outra fôra plebêa; e a mesma plebe que ainda nas procissões, nas semanas-santas, no Senhor-dos-Passos da Graça, conservava um resto de culto pela religião antiga: era essa mesma plebe de Lisboa que apedrejava as irmans-da-Caridade, missionarias da religião nova, aristocratica, afrancezada.

Loulé consentira a entrada das Irmans (9 de fevereiro de 57) quasi ao mesmo tempo que pela primeira vez a locomotiva assobiava conduzindo os convidados á inauguração da primeira secção do caminho de ferro (28 de outubro de 56). Tudo se modernisava n’esta nação que, feudataria da Inglaterra, era a copia da França—em 33, em 42,—e agora, depois de 51, a copia do segundo imperio. Agradecia-nos ella a fidelidade com que aprendiamos? Não, e brutalmente nol-o provou com o deploravel episodio da Charles et George, que derrotou por fim o ministerio historico, batido com vehemencia pela voz do José-Estevão.

Foi na primavera de 59 que Loulé caíu, arrastando comsigo Avila da Fazenda. A Regeneração abrira-nos de novo as portas do sanctuario do crédito; Avila, senão convertido, adherindo ás idéas novas, deixava-se ir na corrente. A possibilidade de emittir era uma tentação irresistivel para nós que, desde 20 até hoje, nunca podemos prescindir de emprestimos para pagar as despezas correntes. Mas desde 51, a parte que se empregava no fomento servia de pretexto plausivel para encobrir a parte maior com que se preenchiam os deficits. Assim, a divida que a Regeneração deixára em 96 mil contos com o juro de 2:900, deixavam-na os historicos em 120 com o juro de 3:600—tres annos, a 233 ao anno, ratio que subirá sempre d’aqui para o futuro.


Depois dos tres annos (56-9) historicos, viu-se um intermedio regenerador (16 de março de 59 a 4 de julho de 60) apenas importante quanto ao pessoal politico. Como presidente, isto é, pendão e apparato, Terceira succede a Saldanha, para deixar por morte o logar a Aguiar. Fontes substitue o fallecido Rodrigo na direcção do partido; e ao lado do chefe vêem-se os homens novos: Cazal, Serpa, Martens, que com Sampaio e Corvo formarão a guarda politica, o pessoal de governo no futuro reinado de D. Luiz. Era uma geração nova, já educada no liberalismo novissimo. Todos os antigos se somem nas casas ou nas covas, á maneira do que succedera em 35, quando morreu D. Pedro. Cabral exilado é o D. Miguel de agora; e, se o quixotesco imperador acabou vomitando sangue e abraçando ainda os seus soldados, Rodrigo, summa e synthese de trinta annos de miserias, Rodrigo a imagem do Desprezo, dizem que se finara murmurando assim—«Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste!» O Desprezo, eis a transição da éra das doutrinas para a edade das conveniencias...

A segunda Regeneração nada regenerou. Fizera-se, da primeira vez, tudo o que havia a fazer; e, como partido de homens practicos, clientela de gente rica, inimiga de reformas, doutrinas e movimentos, não podia consummar o que ainda faltava para completar entre nós a revolução liberal.

Podia-o Loulé, que voltou? (julho 4 de 60) Não elle, mas sim o homem-novo, especie de resurreição cabralista, tão duro, tão energico, tão ambicioso, como o conde de Thomar—Lobo-d’Avila, depois tambem conde, de Valbom. Fallecido D. Pedro V, Braamcamp, o novo ministro do reino (1862), pôde acabar com o incommodo espinho das irmans da caridade, expulsando-as (junho 9, de 62) e subscrever a lei de abolição dos vinculos (maio 19, de 63) (Elog. hist. de Ans. J. Braamcamp, do a.) complemento da obra destruidora de Mousinho da Silveira, porventura temerariamente promulgado n’um paiz que a historia não deixara acabar de construir rural e demographicamente. (Proj. de lei de fom. rural, do a.) Tinham-se, porém, abolido finalmente os morgados, tinha-se instituido o credito-predial, franqueada a barra do Douro, extinguido o contracto do tabaco, reformado as alfandegas, e por fim o primeiro comboyo corria assobiando, desde Lisboa até Badajoz (maio 30, de 63). Á maneira que, porém, crescia a influencia de Lobo d’Avila, o homem novo, caía o chefe apparente do governo, o duque de Loulé. Na camara ouvia-se o Serpa, accusando fria e desapiedadamente de burlão o da unha preta; ouviam-se outros crivando de epigrammas o rei de Sião, duque, ministro somnambulo. Por fóra, nas ruas eram grandes lanternas de papel pintado com uma cruz negra, e os garotos apregoando a historia de um assassinato e de um roubo. (V. a Cruz de Scutulho, op. 1865) Lobo-d’Avila via-se precipitado do governo, antes de ter realisado a sua hegira do Porto; e o Bomfim de agora, se não conseguia vencer, conseguia pelo menos esmagar o rival importuno e antipathico.