Se Costa Cabral com a sua doutrina viera pôr um termo ás successivas definições da Liberdade, desacreditando-a, similhante destino tinha a aventura de Lobo-d’Avila para com as clientelas politicas formadas depois de 51. A sua quéda era o fim dos historicos. Em vão Loulé se apresentou á camara com um gabinete singular, (março 5 de 65) e um financeiro joven, lavado em lagrimas. Houve um riso universal, e ambas as unhas caíram tristemente na valla dos mortos.
E como tudo estava safado, molle, roto, podre, fundiu-se tudo. A Fusão (setembro 4 de 65) era, porém, o modo grave do partido historico se sumir. Sombra evocada de um passado extincto, guiada por um fidalgo somnambulo, querido de um rei excentrico e misanthropo, devia ter-se dissipado quando o rei morreu. Trouxe-lhe um ar de vida a força de um ministro moço, mas a physionomia antipathica d’essa força enodoou-lhe os actos. Se lhe prolongou a duração, foi para lhe preparar um fim mais triste ainda: a cruz negra de um assassinato, as lagrimas ingenuas de um financeiro, a gargalhada unisona da plateia popular.
E era triste, triste vêr acabar assim um homem sympathico na sua molleza aristocratica, um bello typo da raça apurada portugueza, um impassivel: é tão rara a distincção! O duque de Loulé, velho Mendoça, procedia da estirpe dos senhores de Biscaya, em tudo reis, menos no nome. Os Mendoça tinham-se ligado aos Val-de-Reis, vindo a ligar-se aos Rolim, da descendencia do flamengo a quem Affonso-Henriques dera o senhorio de Azambuja.
Singular extravagancia da historia que fizera de um tão nobre senhor o membro e mais tarde o chefe do partido que primeiro foi e depois se dizia ainda democrata! É que a sua vida principiara no meio de condições proprias a desorientar a educação. Seu pae, condemnado á morte por ter sido um dos que invadiram Portugal com os francezes de Massena, perdoado em 21 por D. João VI, morrera assassinado em Salvaterra, tres annos depois, ás mãos do partido apostolico. Seria o espectro do pae a causa da inclinação politica do filho? Entretanto, em moço não abandonou a côrte e era o mais bello e seductor dos fidalgos d’então. A infanta, perdendo a cabeça, casou-se com elle; e os noivos tiveram de fugir, porque D. Miguel vinha irritado por esse escandalo cortezão. Assim o bello marquez emigrou; assim se encontrou, descendente dos Mendoça de Biscaya, marido de uma infanta portugueza, envolvido no partido revolucionario.
O seu lugar natural seria ao lado de Palmella, na côrte da futura monarchia representativa; mas preferia o lado opposto, e foi setembrista, foi patuléa, foi pé-fresco. Era outro Egalité? outro louco? um mau? um ambicioso? Nada d’isso era; apenas um discipulo do romantismo, que á sua intelligencia, limitada mas nobre, apparecia democraticamente poetico, em vez de liberalmente jurista. Afastal-o-hiam tambem da côrte representativa as repugnancias pelo feitio antipathico e menos limpo, nada nobre, dos conservadores? É tambem natural, em quem teve uma existencia immaculada.
A tradição de honradez e virtude, constante no partido dos Passos, do Sá-da-Bandeira, deve contar-se por uma das forças mais energicas com que o setembrismo bateu em 36 os cartistas e dez annos depois os cabralistas. E essa tradição, ainda viva depois da Regeneração, era tambem ainda uma das melhores, senão a melhor arma do partido historico, personalisado no seu chefe, o duque de pedra, frio, mudo, impassivel, mas sem uma nodoa, e com um ar de superioridade soberana que vencia os proprios sabedores do pouco valor d’esse aspecto.
O duque não tinha de certo o olhar profundo, escrutinador das leis a que obedecem as sociedades, nem a audacia, instrumento da victoria em epochas da natureza d’aquella em que vivera. Era mediocre, mas não como caracter. O papel eminente que lhe distribuiram depois de 51 acaso o devia mais á tradição aristocratica do seu nome, á amisade pessoal do rei—historico tambem!—do que ao merito proprio. Mas a educação fidalga, o temperamento frio, a serenidade de uma consciencia limpa, a facilidade de uma vida opulenta, deram-lhe sempre uma indifferença altiva, proverbial e caracteristica, que por vezes se tornou, em certos episodios turbulentos, n’uma placidez quasi heroica. Foi entre nós o typo mais perfeito, senão o unico, d’esses fidalgos-democratas inglezes, que amam o povo abstractamente, mas não dão o braço á gente, porque desceriam. Como um peninsular, porém, era benigno e affavel, embora reservado sempre e mais do que discreto. Todos se lembram ainda de o vêr, impassivel e frio, quasi ou inteiramente indifferente, responder em seccos monosyllabos aos discursos vehementes dos tribunos das opposições. Elle passava, impavido e mudo, pelo meio os tempestades parlamentares; pisava a camara como a sala do throno, e a politica implacavel e plebêa, irritada e cheia de despeito, poz-lhe por nome o Rei-de-Sião.
Não via incompatibilidade alguma em ser estribeiro de el-rei e ao mesmo tempo chefe de um partido que fora, e se dizia ainda, nas suas folhas, democrata. Em pé, descoberta e curvada a cabeça, abria, com uma servidão fidalga, a portinhola do coche real, para em seguida ir collocar-se á frente dos ministros; e esta posição dupla, inconsequente, mais de uma vez lhe trouxe dissabores. Um grande fidalgo não póde hoje entrar na politica, senão para a escravisar a ella e para impôr a sua vontade aos reis: só assim remirá, perante o seu povo, o seu vicio de origem. É mistér ser-se Wellington, de quem tremeu Jorge IV, e a rainha Victoria foi pupilla; Saldanha, a quem deu vivas D. Maria II; ou Bismarck, o que levou pelo beiço o imperador Guilherme. De outra fórma o povo vê sempre o cortezão, e raro o politico. Por isso Loulé jámais foi popular, apesar de sério, fiel, honrado e bom. Humano e caridoso á antiga, quasi perdulario por desdem, não por luxo, que vivia pobremente, era adorado pelos seus clientes privados; mas os seus clientes e adversarios politicos, saídos da massa do povo avaro, parvenus mais ou menos petulantes, não lhe perdoavam a sua fidalguia. E a indolencia invencivel do duque dava-lhes frequentes motivos para o accusarem com fundamento. Diz-se que o vergonhoso resultado da questão Charles et George proveiu de uma nota franceza que o ministro metteu no bolso e a que jámais se lembrou de responder.
Ferveram sobre elle as calumnias, e por vezes estiveram para ferver as pedradas da plebe amotinada. Chegaram a accusal-o de envenenador da familia real, para succeder no throno; mas ás calumnias não respondia: não responde quem se présa; e uma vez que o povo clamoroso rodeava a carruagem, ameaçando o, mandou parar, abriu a porta, desceu e disse: «Que me querem? Deixem-me. Vão para casa e soceguem». Disse-o placidamente, sem erguer a voz, e o povo rendeu-se. Sem pose, tinha uma coragem fria, verdadeira. Ardia-lhe a casa, de noite: vieram os creados afflictos, chamal-o; e elle, ouvindo-os, disse-lhes que quando o fogo chegasse ao quarto immediato o avisassem. Assim deixava arder a sua casa, porque era historico, e nada tinha do ávido temperamento burguez, imperante nas companhias, nas bolsas, nos caminhos de ferro. Era um D. João VI, mas bello; ou como o rei que tanto lhe queria, como um D. Pedro V já velho. Historico por descendencia fidalga e politica, duas illusões o acompanharam ao tumulo: a do sangue e a da LIBERDADE. Uma das suas ambições era a de «fazer umas eleições prohibindo sériamente a intervenção ás authoridades administrativas». Morreu sem vêr realisado esse desejo, confissão plena da genuinidade da representação, proferida por quem de perto conhecia as cousas; e ao mesmo tempo documento da sinceridade com que os homens são capazes de acreditar em chimeras.