Confrange, é verdade! entristece, o lembrarmo-nos da somma de rectidão, de lealdade, de quasi heroismo gastos por nossos paes em levantar um edificio aereo que nem sequer lhes foi licito deixarem de ir vendo cair, pedaço a pedaço, hora o hora, até á da final subversão no riso sceptico, regenerador!
Em 51 fôra uma parte do setembrismo mais rubro (Sampaio, José-Estevão) que se convertera; em 65, na Fusão, converteu-se a parte branca do partido historico. A unha-preta, cauda democratica de um partido forçado a ser conservador; a unha-preta, menos o seu chefe (tambem convertido), restaurou as declamações setembristas proferidas na tribuna por Santos-Silva, na imprensa pelos Tanas do Portuguez. Por outro lado, José-Estevão desquitara-se da segunda regeneração (59-60), ministerio addicto ás irmans-da Caridade, e teimava ainda em crear uma democracia com elementos novos. Morreu na faina (nov. 4 de 62) o tribuno peninsular, e as duas caudas dos dois partidos extinguiram-se pouco a pouco, sumindo-se pelas covas, ou pelos empregos—da alfandega, principalmente. A unha negra do fado condemnava-os todos a uma sorte commum.
Outra garra, branca como o halito da locomotiva, novo idolo do tempo, chamava á conservação politica no seio da revolução economica, a gente séria de todos os lados, fusionada, abraçada n’um liberalismo pratico sem doutrinas, n’um catholicismo tambem pratico sem exageros, n’uma religião de sala, perfumada, afrancezada, burguezmente aristocratica, n’uma moral facil, n’uma vida commoda, já que de todo não podia ser regalada.
E porque? porque apesar de quasi vinte annos de regeneração, o Thesouro teimava em se não encher, e era indispensavel moderar a furia com que pediamos emprestado. O povo «podia e devia pagar mais». Mais quando a Fusão, já inteiramente regeneradora desde 66 (9 de maio), reclamou impostos de consumo, os negociantes do Porto fizeram a Janeirinha de 1868. Houve a sombra de uma revolução, houve um terror palaciano, muitas phrases, ondas de cousas ridiculas, e por fim, como orgão da novissima democracia, o duque d’Avila primeiro, o bispo de Vizeu depois. A Regeneração acabava; a nova éra abria-se entre um baculo e um brazão.
NOTAS DE RODAPÉ:
[39] Voltou em 1892; e coube ao A. a triste sorte de proceder á execução. (3.ª ed.)
[40] V. Hist. de Port. l. v.