(Herculano, Poesias).
Já a doutrina os tinha condemnado; já Mousinho na Terceira havia escripto a sentença da sua abolição; e depois, e mais em nome da vingança dos vencedores do que em nome da doutrina, foram exterminados. «Negros, uns vultos vaguear se viam» agora, esmolando miseraveis, ou foragidos pelas serras, homisiados, precítos, caçados e escarnecidos. Herculano, com uma corajosa humanidade, protestava: era «uma das realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais estupidas e covardemente crueis do seculo presente». (Os egressos, op.) Fôra um roubo a expropriação:
Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriámos. Se o fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma cousa cujo nome não escreverei aqui, sel-o hemos só 999; porque teremos restituido a milesima parte do que loucamente havemos desbaratado. (Ibid.)
O sentimento de uma justiça absoluta imperava já, no espirito do poeta stoico, por sobre as paixões de uma guerra passada, por sobre o enthusiasmo de una victoria—tão triste! por sobre o systema das opiniões politicas e o conjuncto das impressões partidarias. Era um acto de justiça humanitaria que nem poderia remir os crimes commettidos. A educação kantista do poeta fazia-o, como a Mousinho, ter um culto pela propriedade, expressão social positiva do individuo. Mas a theoria era condemnada pela politica. Se se não tivesse sequestrado no Porto, ter-se-hia morrido; se os bens dos frades se não tivessem confiscado e retalhado, o liberalismo teria caído no dia seguinte ao da victoria.
Não era porém só o kantismo que entrava na composição do estado de espirito dos novos romanticos. Era a tradição, o amor vago do passado, que os levava á inconsequencia de renegar o kantista Mousinho, reprovador da historia nacional. Era a tradição religiosa:
Os tempos são hoje outros: os liberaes já conhecem que devem ser tolerantes e que precisam de ser religiosos. A religião de Christo é a mãe da liberdade, a religião do patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e outra cousa, é mau inimigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a á irrisão e ao odio do povo. (Garrett, Viagens)
Atacando por este lado a tradição radical de Mousinho, abraçavam por isso os romanticos a eschola opposta, embora tambem liberal (sempre e todas, por diversas que sejam, são liberaes) de Palmella e do primeiro romantismo? Não. Depois do diluvio da revolução setembrista ficára no ar uma nevoa de indecisões poeticas. Queriam-se nomes, não se queriam cousas: aristocracia, sem pares vitalicios; religião d’Estado, mas tolerante e liberal; antiguidades, tradições, mas apenas como thema para romances e xacaras. Amava-se com furor a Edade-media, mas no papel. Era a sombra do primeiro romantismo, este de agora. Palmella não tinha querido que os conventos se abolissem: Garrett não os queria restaurar, lamentando porém que os frades tivessem desapparecido: davam um tom pittoresco e côr local aos quadros: «Nos campos o effeito era ainda muito maior: caracterisavam a paysagem». (Viagens) A doutrina dissolvia-se politicamente n’uma anarchia positiva; e moralmente acabava n’um desejo vago de artistas ou em contradictorias exclamações de poetas. Qual era o novo codigo da novissima, da terceira eschola liberal? Quem o sabe? Tudo; nada—o nevoeiro que o diluvio deixára sobre as terras quando, perante os clamores unanimes dos neo-romanticos, o setembrismo acabou.
Não se creia, porém, que homens como Herculano e Garrett, pouco importantes na politica e por isso mesmo mais livres: homens cheios do talento e estudo, não percebessem o fundo real das cousas. A propria inconsistencia, a indeterminação mais ou menos sentida das doutrinas que seguiam, davam-lhes ainda uma facilidade maior para verem a verdade. Nós conhecemos em que termos Herculano apreciava os homens do dia; e Garrett, além dos motivos de artista, via outros para lamentar a queda do passado.