O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois ... Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu; e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer ... E quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades—não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. (Ibid.)

Não podiam ser, não; não podiam ser outros do que tinham sido, do que ficaram até hoje, onde ficaram, do que serão emquanto existirem. Como poderia o frade, crendo na ordem divina de um mundo formado tal-qual por uma vontade absoluta, admittir a doutrina que põe na razão do homem a origem de todas as cousas? Iria adorar, em vez da Trindade, o vosso Architecto-supremo, ó maçons? Nem o frade vos comprehendia, nem vós ao frade; e assim devia ser: porque a broca da analyse não profundára ainda a natureza das vossas doutrinas, varrendo as chimeras das vossas illusões. O frade vinha ligado a um passado real, e vós apparecieis prégando uma doutrina de inconsequencia, em que esse passado vivo se tornava em miragem poetica, e o presente, com as vossas idéas nebulosas, na realidade crua do novo imperio dos barões.

Tal aristocracia, materialista, brutal, sem lustre nem dignidade, mandava a natureza que saísse da concorrencia livre entre individuos soberanos. Ou renegar o individualismo, voltando ao romantismo velho; ou reconhecer no barão um filho legitimo. Não o fazer, demonstra sem duvida falta absoluta de senso. Chorar—e ainda bem!—prova que os homens não tinham seccado de todo. Mas, em vez de chorar em publico, na frente dos barões que se riam digerindo, não era melhor fazer como o democrata condemnado: recolher-se a casa baloiçando a filha sobre os joelhos?

Não seria; e já que os escriptores, redigindo a doutrina do terceiro ou quarto liberalismo, sentiam a inutilidade das combinações, a vaidade das esperanças e a victoria inevitavel dos barões; já que, sem se convencerem, se submettiam, melhor era com effeito que, deixando a politica, baloiçassem outra filha querida—a arte, as lettras. Litterato sobretudo é, com effeito, o segundo romantismo, no qual os principios do primeiro se tornaram themas de poesia. Aos barões que imperavam na sociedade positiva, apesar das fórmulas e dos preceitos da novissima constituição ordeira, havia que pedir esmola para os frades mendigos, para os estudos abandonados.

Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e frio! (Herculano, Os egressos, op.)

Passos clamara misericordia para o miguelista, Herculano pedia pão para o frade: nenhum foi ouvido. O primeiro demittiu-se; o segundo abandonou a politica pelas lettras; e com as ruinas da velha poesia, elle, Garrett, e os discipulos de ambos propuzeram-se crear a tradição que convinha ao novo regime.

3.—RENASCIMENTO

A historia nacional, que a nova geração se decidiu a estudar, restaurando a erudição academica e monastica, offerecia tradições varias. A primeira e mais importante, a que distinguia Portugal do commum das nações; a do imperio de vastos dominios ultramarinos, Hollanda do extremo occidente, que vivera da exploração de regiões extra-europêas, nação de navegadores e colonisadores—nem foi lembrada. Além de não estarem em moda os estudos geographicos, primando a tudo a historia das instituições; além de ter ficado arruinado completamente o systema colonial portuguez com a separação do Brazil e com a abolição do trafico de escravos em Africa:[21] o pensamento economico da eschola era o de Mousinho, e nós sabemos como elle condemnou o passado, querendo que a nação vivesse por si, de si, com o seu trabalho, sobre o chão que tinha na Europa. Apenas Sá-da-Bandeira instava pela volta á politica colonial; mas fazia-o de um modo indiscretamente humanitario, esperando construir um Brazil em Africa, com o trabalho livre e a concorrencia e garantias liberaes. N’isto se mostrava o seu romantismo. A sua preoccupação colonial passava por mania, e chegava a sel-o.

Outra das tradições portuguezas, bastante ligada com a anterior, era a do absolutismo ou do imperialismo: a fórma organica adequada á existencia de uma nação, vivendo contra naturam da exploração de terras distantes: a monarchia de D. João II e D. Manuel, a D. João V, e por fim a do Marquez de Pombal. Como reconheceria o romantismo esta tradição, quando a alma do seu pensamento politico era a soberania do individuo? É ocioso insistir em demonstrar as causas de antipathia.

A terceira, finalmente, das tradições portuguezas era a catholica. O reino creara-se como feudo do papado; as ordens monasticas tinham sido um dos principaes elementos da sua povoação na metade austral;[22] e por fim, em tempos mais recentes, o jesuitismo invadira o espirito da nação e os seus dominios ultramarinos. A Companhia foi a educadora e colonisadora, em Portugal, na Africa e no Brazil,[23] depois de ser missionaria no Oriente, na Africa e na America. De taes motivos resultara a nação de sacristães, frades e beatos do XVIII seculo, estonteados no seguinte, quando lhes faltaram as rendas do Brazil. Não fôra contra esta que se batalhara por annos? Como havia de continual-a, a gente que a destruira? Tradição propriamente aristocratica não existia, porque toda a monarchia de Aviz se occupara com exito em deprimir a nobreza medieval, e depois, a de Bragança teve de acabar com ella, por castelhana, no tempo de D. João IV, por teimosa, no tempo de Pombal.[24]