Que tradição de historia invocar, pois, quando a revolução romantica era a negação da historia nacional? Iria o liberalismo acclamar os despotas? Iria defender a escravisação das raças africanas e americanas, o individualista inchado com a noção da soberania do homem abstracto espiritual? Iria o livre-cambista, discipulo de Smith, applaudir as protecções e monopolios á sombra dos quaes se formara a riqueza nacional?

Não. Seria demasiada inconsequencia. Inconsequente era o romantico, pretendendo conciliar uma tradição com o seu racionalismo abstracto; inconsequente, comtudo, por necessidade, pois ainda «a broca da analyse» não patenteara o systema das leis da evolução, que mostram não haver na realidade absolutos, apenas formas transitorias, relacionadas sempre, deduzindo-se naturalmente, espontaneamente. O romantismo ou eschola historica prevía, precedia esta doutrina; mas o espiritualismo racionalista que lhe andava ligado não o deixava avançar, e precipitava-o em aventuras singulares.


Uma das mais conspicuas foi de certo a tentativa de crear uma tradição nacional portugueza, contra os elementos de uma historia de cinco seculos, quando a duração total da nossa historia não excedia sete. Mas esses dois primeiros affiguravam-se os puros: sendo o resto erros, desvios da genuina tradição. De tal fórma se obedecia á moda que lavrava nas nações germanicas; mas n’esses paizes a tradição medieval era viva, estavam ainda de pé as instituições antigas; pois só na França e na Hespanha se tinham constituido absolutismos, e só a Peninsula tinha tido, para além dos territorios europeus, vastos dominios ultramarinos.

Embora dirigidos por um criterio errado, os propugnadores do romantismo, a cuja frente se viam Herculano e Garrett, mettiam mãos a uma obra em todo o caso necessaria. A abolição dos conventos destruira o systema dos estudos; e se cumpria aos governos organisar a instrucção publica, era a obrigação dos escriptores novos continuar a obra dos frades. Do valor esthetico ou scientifico d’esses trabalhos litterarios da geração que nos precedeu não temos que nos occupar aqui, pois não tratamos da historia litteraria, aproveitando das lettras apenas como documento historico da sociedade.

As estancias do Tasso, retumbando das bocas dos barqueiros nas margens do Brenta e do Adige e os romances de Burger, cantados em sons monodicos á lareira nas longas noites da Germania, e as trovas de Beranger repetidas por milhões de bocas em todos os angulos da França, dizem mais a favor da poesia em que transluz a nacionalidade do que largas dissertações metaphisicas.

(Jornal da soc. dos am. das lettras).

Herculano escrevia isto em 34, applaudindo os Ciumes do Bardo de Castilho, pastiche crú, nem portuguez, nem cousa nenhuma. Mau symptoma: porque o critico confundia o genero em litteratura com o renascimento da nacionalidade.

Burger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes; e é a elle a Voss que devemos a renovação d’este genero inteiramente extincto na Europa depois do XVI seculo ... A poesia deve ter, além do bello de todos os tempos, de todos os paizes, um caracter do nacionalidade, sem o qual nenhum povo se póde gabar de ter uma litteratura propria.

(Herculano, nas Mem. do Conserv.)