Mãos, portanto, á obra. A «sociedade doa amigos das lettras», dos Castilhos, não vingara. Com Bernardino Gomes, no Porto, já Herculano tinha fundado a «sociedade das sciencias medicas e litteratura»—duas cousas talvez admiradas de se acharem reunidas. Agora, em Lisboa, o renovador dos estudos, o chefe da nova eschola, creava a «sociedade propagadora dos conhecimentos uteis» cujo orgão, o Panorama, adquiria uma circulação extraordinaria. Não havia outra cousa que lêr, e lêr começava a ser moda na sociedade das luzes, como diziam, com ironia e despeito, os antigos. O Panorama trazia bonecos e receitas, além de trazer os estudos iniciadores da tradição nova, assignados «A. H.»

Que eram, que são esses trabalhos? (Lendas e Narrativas, Monge de Cister, Bobo, etc.) Sabiamente extrahidos das chronicas por um erudito, que relação havia entre elles e as memorias e lembranças vivas na imaginação popular? Nenhuma. Falasse a litteratura ao povo nas aventuras das viagens, nas historias dos naufragios, e de certo acharia ainda um ecco: mas em D. Fuas ou no celebre Paio-Peres-Correia? Quem se lembrava de tal? que sentimentos, que memorias estavam ligadas a essas façanhas de tempos breves e sem caracter particularmente portuguez? O genero porém impunha estes assumptos, e a educação litteraria, de mãos dados com a philosophica e economica, repelliam os outros, oriundos da positiva historia da nação. O modelo era Walter Scott, traduzido pelo Ramalho. Nas novellas do escocez se achava o typo das tradições nacionaes.

Mais perspicaz, Garrett punha em scena o marquez de Pombal (A sobrinha do Marquez), typo vivo, presente, popular; e se tambem ia á Edade-media (Arco-de-Sant’Anna, Alfageme), era para explorar a moda, aproveitando os nomes antigos em dramas ou comedias da actualidade. Mais perspicaz, via que no povo portuguez não havia tradições medievaes, e que as lendas das chronicas eram objecto de erudição, mas não de litteratura ou poesia nacional. Em vão se procuraria ahi o renascimento. Cavou mais fundo e foi aos romances e historias da tradição oral: essa era a poesia da raça, não a poesia historica ou nacional. O Romanceiro, feito com um proposito litterario e não ethnologico—Garrett não era como os Grimm—não tinha comtudo alcance para o renascimento da nacionalidade, porque, em Portugal, a nação provinha de uma historia e não de uma raça individualisada. A poesia popular funde as nossas populações no corpo das populações ibericas.

Em vão, portanto, o romantismo procurava uma tradição. Não a achava, porque as idéas philosophico-economicas condemnavam as conhecidas; e não havendo outras a descobrir, os romanticos implantavam um genero litterario de importação da Escocia, á Walter-Scott, sem conseguirem acordar no povo lembranças d’esses dois seculos de Edade-media de que elle não tinha recordações, porque n’elles a vida da nação não tivera caracter proprio. Senhorio rebellado, como tantos outros, até ao fim do XIII seculo, é só com a vida maritima então iniciada que principia uma historia particularmente portugueza.


No lugar onde a Inquisição tinha sido, fôra o Thesouro que ardera, e ficara—ficou até hoje!—em ruinas. N’esse lugar historico se levantou o templo romantico do renascimento da tradição nacional. Pobre theatro de D. Maria II! que vives da traducção das comedias francezas. Em vez de representarem ahi as tragedias portuguezas: a historia das viagens, dos naufragios e aventuras do Ultramar, a historia das cruezas da Inquisição e a tortura do judeu, talvez até a historia da propria queima do dominio do velho Estado, no lugar onde o Thesouro ardeu—representaram scenas tão horrendas quanto frias: os melodramas romanticos, de montantes e couraças, n’um estylo arrevezado e cheio de «sus! eias! bofés! t’arrengos!» Á força de lagrimas, adormecia-se, em vez de se acordar para a renascença de uma tradição apagada, tanto mais que nunca existira. Garrett disse-nos como essa tradição se fazia:

Vae-se aos figurinos francezes de Dumas, de Sue, de Victor-Hugo, e recorta a gente de cada um d’elles as figuras que precisa, gruda-os sobre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul; fórma com elles os grupos e situações que lhe parece: não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vae-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos: com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrões illuminam-se, etc. (Viagens).

Assim era no theatro; assim na imprensa, Herculano, condemnando a aristocracia e os seus vinculos, o Estado e a sua authoridade, o throno e o seu poder; condemnando todas as instituições historicas, apenas descobria uma, unica n’esses tempos breves, antigos e genuinos, depois dos quaes tudo fôra erro,—o municipio. (V. Hist. de Portugal) Mas esse municipio redemptor, verdadeira e pura tradição nacional, que era? Elle nol-o diz tambem: (Parocho d’aldeia, Carta aos eleitores, etc.) uma assembléa de cretinos.

A sociedade é materialista; e a litteratura que é a expressão da sociedade é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de facto! Quixote, rei de direito!... É a litteratura que é uma hypocrita. (Garrett, Viagens).

Hypocrisia? não: innocencia, propria de litteratos ou doutrinarios. O romantismo ficava sendo um genero e falso; a sociedade seguia o seu caminho. Sancho reinava. O municipalismo ficava sendo o que era, o que podia ser, um instrumento administrativo. Dir-se-hia, pois, que tudo eram tambem ruinas por este lado, e tudo anarchia? Não. Quando os homens valem, as suas obras fructificam, apesar das formulas a que obedecem. A natureza é mais forte do que as doutrinas, a realidade sobrepuja as chimeras. Como obra de homens ficaram os trabalhos de erudição historica de Herculano; ficou, para attestar o genio do artista Garrett, uma tragedia em que a tradição realmente o inspirou, o Frei Luiz de Sousa.