Na sua commovedora simplicidade, o drama representa o fundo intimo da vida portugueza, com a mistura de anceios e tristezas, esperanças envenenadas de fortunas apparentes e impossiveis que conduzem a essa devoradora melancolia que se chama saudade. O effeito é tanto mais desolador, quanto a esperança realisada apenas serve para despedaçar os corações. No fim, quando os personagens principaes dizem adeus ao mundo para entrar no convento, parece que a nação inteira pronuncía os votos.

(Quinet, Vacances en Espagne).

O Frei Luiz de Sousa é a tragedia portugueza, sebastianista.[25] O fatalismo e a candura, a energia e a gravidade, a tristeza e a submissão do genio nacional, estão alli. Não é classico, nem romantico: é tragico, na bella e antiga accepção da palavra: superior ás escholas e aos generos, dando a mão, por sobre Shakespeare e Goethe, a Sophocles. N’um momento unico de intuição genial, Garrett viu por dentro o homem e sentiu o palpitar das entranhas portuguezas. Que ouviu? Um choro de afflicções tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etherea, na imaginação de uma rapariga phtysica, e no tresvario de um escudeiro sebastianista.

Quando o genio tinha uma revelação d’estas, estaria forte, viva, crente n’uma tradição seguida, ávida por um futuro certo, a nação entregue aos braços da Liberdade?

Balouçada nos joelhos do tribuno a filhinha sorria, e elle tristemente se consolava, esperando, esperando ... mas para longe, quando, tudo acabado, D. Sebastião voltasse em uma manhan do nevoa ... um D. Sebastião iberico ...

4.—A ORDEM

Por ora, não. O povo inteiro pronunciava os votos cada dia mais formaes de uma abstenção decidida. Deixal-os, os politicos, fazer systemas e revoluções, cartas, juntas, programmas, côrtes, leis; deixal-os comer e engordar e devorarem-se: elles cançarão!

Já desanimados, tinham cançado Mousinho e Passos; mas havia gente nova, para uma terceira investida, um terceiro liberalismo: a Ordem. Mas como póde haver ordem nos factos, se as idéas são uma desordem? Como conciliar as instituições e as idéas, quando as primeiras, reconhecendo a aristocracia n’uma segunda camara, a, theocracia n’uma religião d’Estado obedecem ainda ao pensamento do primeiro romantismo, ou do tradição historica? quando o segundo fez recuar essa tradição para o campo vago de uma poesia, além de insufficiente para dar consistencia ao organismo social, falsa e artificial, obra de litteratos, paixão de archeologos e eruditos, inaccessivel ao povo? Como conciliar essas instituições com o principio da soberania do individuo, já combinado pela revolução com o da soberania do povo? e com o systema da concorrencia livre, prejudicado pela revolução, tambem, com o systema da protecção ás industrias? Essa ordem é um cháos, de instituições e idéas. Já não ha, é claro, uma Anarchia systematica, tal como a concebera Mousinho; mas em vez d’ella ha uma mistura de elementos contradictorios, liberaes, democraticos, romanticos, d’onde sae a supposta ordem da constituição de 38.

Assim, tambem, já não ha bandidos: os marechaes voltaram e juraram; mas sob a paz apparente lavram os germens de novas desordens. A anarchia fôra até 36 um systema. Agora pedia-se ordem; mas as vida antiga ia continuar contra a vontade dos homens já saciados, já desejosos de gozar em paz o fructo dos seus trabalhos. Rodrigo apparecia á frente dos setembristas e cartistas fusionados para o descanço: Rodrigo sceptico desde o berço, mas talvez crente em que no scepticismo estivesse a sabedoria, e por isso na constituição de 38 o porto desejado da vida liberal.

Não, não podia ser: a confusão dos elementos não podia dar a ordem nas instituições. Foi a rainha quem fez da Costa Cabral um instrumento para restaurar a CARTA (1842), cudilhar Rodrigo e os ordeiros fusionados, e os romanticos? Talvez fosse; talvez não fosse: logo o vermos. Mas o facto é que o status quo não era viavel, apezar das affirmações em contrario dos vencidos.