Palmella com o seu romantismo aristocratico pugnára pela conservação de uma camara de pares vitalicia, hereditaria; mas a revolução veiu e destruiu-a. Depois, em 38, o meio-termo creou a camara dos senadores temporarios, electivos. É verdade que, extincta ou protestante por miguelista, a antiga aristocracia não podia preencher os lugares da camara; mas não é menos verdade que um senado temporario e electivo só é viavel dentro de um systema de representação de orgãos e classes da sociedade; sendo uma chimera, um accessorio inutil, uma duplicação van (como agora mesmo se vê em França), quando procede, como a camara-baixa, do suffragio popular, directo ou indirecto.
A antiga aristocracia demittira-se, é verdade; mas a liberdade e a concorrencia tinham creado um poder real e novo, uma plutocracia: a classe dos burguezes ricos que não podiam deixar o seu poder, os seus interesses, á mercê dos acasos das eleições; que não pactuavam com o individualismo, nem com a democracia, querendo para si o dominio seguro a que de facto lhes dava direito o seu poder estavel. Derrubadas todas as authoridades em holocausto á doutrina, só uma não podiam os doutrinarios destruir: o dinheiro. O dinheiro, pois, creou para si uma doutrina nova, que teve por defensor Costa-Cabral. Era um quarto, ou quinto liberalismo que surgia e vencia todos os anteriores.
Guizot e Luiz-Philippe tiveram de fazer em França o mesmo que D. Maria II e Cabral fizeram cá. Aos burguezes diziam—enriquecei-vos! e ás instituições e garantias reformavam-nas no sentido de crear e consolidar a nova aristocracia dos ricos. Era uma fórma de Ordem que escapou ás previsões dos romanticos: os seus medos e coleras tinham-se voltado e consumido contra a democracia! O inimigo surgia abruptamente d’onde o não esperavam, e bateu-os com a maxima fortuna. Restaurou-se a CARTA, sem ser necessario um tiro: é verdade tambem que da mesma fórma caíra em 10 de setembro. Os romanticos sinceros, ingenuos, esperando a acção dos meios moraes, esqueciam a força dos elementos positivos: a ordem que tinham fundado era uma bola de sabão. Um sopro desmanchou-a.
E assim devia ser tambem, perante a natureza das doutrinas. Pois se a unica fonte da authoridade moral e politica era o individuo, pois se a propriedade era a sagração de uma personalidade soberana, onde se havia de ir buscar o mandato, senão á vontade da maioria? como se havia de desconhecer a importancia suprema da riqueza? Porque protestavam, pois, contra os setembristas, chamando ignaras ás maiorias? e contra os cabralistas chamando nomes aos argentarios? Ou o dominio do numero, ou o imperio do dinheiro: eis ahi onde a liberdade conduzia fatalmente. Onde conduziria, senão á affirmação de uma authoridade cega do numero ou das forças brutas, a doutrina que negára a authoridade social em nome da natureza do individuo?
Falhára a conclusão democratica; mas ia vencer a aristocracia nova: assim terminavam no absolutismo illustrado os diversos liberalismos.
D’esta ultima ruina qual é o cadaver que surge? Quem é agora o successor de Mousinho ou de Passos? Ninguem; não ha, porque não houve tempo bastante para fazer desilludidos. O tempo virá, e d’aqui por dez ou doze annos, veremos como acabam de vez as illusões de Herculano, o romantico ordeiro. O tempo virá, e na mesma hora veremos Rodrigo, já cabalmente educado, já de todo em todo sceptico. Aprendera afinal a conhecer a sua terra, a sua gente, o seu tempo! Singular cegueira fôra o que suppunha em si perspicacia: «não o cudilhariam outra vez».
Agora, ainda o consummado actor não compunha bem o seu sorriso final, satanico, de uma ironia e desprezo universaes; ainda tinha despeito e até colera, vendo a victoria do rival duro e forte. Agora, representava-se o Frei Luiz de Sousa e as platéas, commovidas, choravam, pensavam tristes. Ruinas, sempre ruinas!... Ergue-se, porém, um homem novo: será um messias? será D. Sebastião? Mas recordavam-se de o ter ouvido nos Camillos, e extranhavam ao vêl-o agora nos degraus do throno. Entre duvidas, esperanças, tristezas, submissões, desesperos, acabava a anarchia liberal, para dar logar ao absolutismo novo, erguido sobre a Babel das riquezas obtidas, Deus sabe como! nos tempos da desordem.
A magnificencia de Lisboa é mais triste do que as charnecas de Hespanha: ruas sumptuosas, praças immensas, a cabeça de um grande imperio,—e o silencio, a solidão d’uma terra, ou d’uma Gomhorra subvertida. Feria-me sobretudo esta melancolia, quando a comparava á embriaguez das cidades de Castella e da Andaluzia. A Hespanha dança por sobre as suas ruinas: Portugal agonisa no atrio de um palacio. (Quinet, Vacances en Espagne)