Por isso ficaram sem echo todas as vozes, e á frente d’ellas estava Mousinho protestando. Uns queriam que na compra dos bens se não admittissem os famosos titulos das indemnisações; outros queriam que o producto das vendas se applicasse comesinhamente á amortisação das dividas; outros, lamentando a ignorancia do povo, e considerando a instrucção a melhor ancora da liberdade, queriam, finalmente, que as propriedades da nação se convertessem n’um fundo de instrucção publica. O governo encolhia os hombros compadecido da ingenuidade boa dos utopistas, e ia vendendo, vendendo, queimando, queimando. E o numero das adhesões fieis e firmes á causa crescia, varrendo o medo de uma possivel restauração do passado. Um comprava os campos de Alcobaça, expulsando de lá a feliz população rural que os frades tinham creado;[2] outro remia o seu antigo miguelismo ficando com o Espirito-Santo de Lisboa; outros em sociedade, tomavam para si as lezirias do Tejo o Sado; Palmella ficava com a serra da Arrabida confiscada ao Infantado, que a confiscara aos duques de Aveiro no tempo de Pombal. Terceira tomava para si o Sobralinho de Alverca. Era positivamente uma conquista á maneira das conquistas historicas. Succedia o que succedera no tempo dos godos: uma expropriação dos vencidos pelos vencedores, salvo a franqueza da confissão, outr’ora manifesta sem rebuço, agora encoberta sob fórmulas e sophismas de legalidade liberal. E d’essa falta de sinceridade provinha uma nova consequencia. Quando os cães disputam um osso, ladram e mordem; e tambem n’esta faina do devorar havia latidos e dentadas, denuncias formaes dos que tinham comido menos, contra os que tudo queriam para si.

O escandalo das Lezirias provocava protestos formaes das opposições. Os pares, os deputados, Fronteira, Loulé, Sá-da Bandeira, os Passos e outros imprimiram (10-14 de nov. de 35. V. os Protestos nos jornaes do tempo) declarações contra o decreto do dia 3 que punha á venda «por junto e n’um só lote todas as propriedades nacionaes das margens do Tejo, denominadas Lezirias e das margens do Sado, denominadas da Comporta», mandando acceitar o lanço de dois mil contos feito por uma companhia. Era uma infracção da lei de 15 de abril, outorgada para fraccionar a propriedade rural: era um senhorio que se creava «onde podia haver cinco ou seis centos de proprietarios livres».

Já então Saldanha, nas agonias do seu radicalismo, presidia ao gabinete chamorro e contra elle voavam os tiros dos seus velhos amigos o defensores de Paris, os Passos. Ainda em 33, do Cartaxo, quando talvez já oscillasse entre a democracia e a conservação, lhes escrevia para o Porto: «Minha mulher (que acaba de participar-me que está feita dama da ordem de Santa Izabel) manda-lhes dizer que quando vierem a Lisboa não quer que tenham outro quartel senão a nossa casa.» (22 de outubro; carta autogr. Corr. ined. dos Passos, á qual recorremos mais uma vez). Agora, porém, tinha já virado completamente de rumo.

Ia-se vendendo, vendendo sempre e bem, apezar dos protestos. Já em agosto, o conde da Taipa pedira na camara que se suspendesse a queima até que se determinasse alguma ordem na venda «porque não corresponde aos fins para que foi determinada». Fins? que fins? O unico fim positivo era dispersar as massas de propriedade que podiam ser nucleos do contra-revolução; era converter os tibios, saciar os soffregos, tapar a bocca aos maledicos, e consolidar o sentimento da satisfação universal na plenitude farta!

Em junho de 36 já havia realisados 5:266 contos das vendas. É verdade que o Thesouro recebera apenas 2:158; mas o resto, ou 3:108, fôra a chuva de ouro do governo, sob a fórma de titulos, indemnisações (2:400), dividas: papelada! E para confirmar a sinceridade dos desejos do ministro, quando propunha se retalhasse a propriedade, convém saber, além do caso das Lezirias, que esses cinco mil contos das vendas se distribuiam por 632 compradores, (Coll. de contas da comm. inter. da Junta, 10 de set. de 36)—o que dá a média de nove contos a cada um. Á velha aristocracia da côrte e dos mosteiros succedia uma aristocracia nova de aventureiros—os barões do castello de Chuchurumelo! (Garrett).

Silva Carvalho conformava-se com o mallogro das suas idéas de economista, perante o exito do seu plano de politico: via a clientella farta; e o rubro Aguiar socegava: os frades não voltariam, porque os herdeiros dos seus haveres os haviam de defender com a tenacidade do egoismo. Cabia-lhe a melhor parte da gratidão dos novos donos; pois fóra elle quem; contra todos, redigira e publicára o decreto da abolição das ordens religiosas, cujos bens eram a melhor parte do opiparo despojo.[3]

Além das propriedades, casas e terras, tinha havido um diluvio de alfaias, mobilias, ouros, pratas, e caldeirões das baterias das cosinhas pantagruelicas; e esta copia de bens moveis pudera sumir-se, devorar-se, sem necessidade de fórmulas e processos liberaes-legaes.

Por isso mesmo a confusão em maior ainda n’esta especie, e mais repetidos os clamores, as denuncias, as accusações. N’esse mar revolto vinha a flux o lodo da rapina desenfreada. Do cubiculo escuro da sua redacção, o diogenes do Porto, Bandeira, commentava assim os acontecimentos parlamentares:

O Claudio chamou ladrão ao Seabra. Olhe que lhe fez grande injuria! Não é similhante nome tão estimado? Não andam os ladrões nas palmas das mãos? Não são muitos votados para empregos e eleições? Não ha tanta gente de gravata lavada que os protege? Não são elles uma verdadeira potencia, com exercitos, caixa militar, capitães, capellães e cornetas? Não têem elles o direito de vida e de morte? Não impõem elles contribuições forçadas? (Artilheiro, 9 março de 36).

A allusão é clara ao bandidismo que imperava á solta, municiado e protegido pelos partidos. Cada chefe tinha os seus clientes no fôro, comprados a dinheiro; e as suas guerrilhas no campo, para dominar e vencer a tiro nas eleições. Logo iremos vêr o que eram as provincias e a sua orgia sangrenta: agora, estamos na capital, onde corre o ouro dos emprestimos de Mendizabal, onde o Medicis-Farrobo dá largas á sua phantasia de artista, agasalhado com as luvas do Tabaco. Progride tudo: ha omnibus, ha o tivoli da rua de S. Bento, á imitação dos jardins parisienses. Vae-se dançar: annos antes, ia-se ás egrejas ouvir os sermões dos frades. No Circo olympico Avrilon faz de D. Pedro IV, com grandes barbas e a farda de coronel de caçadores 5, no Porto, ao som do hymno da CARTA. Ha um vivo enthusiasmo. (Apont. da vida, etc.) Trocou-se o Evangelho pela Liberdade; o sermão pelos discursos de S. Bento; as procissões pelas danças nos tivolis; os solemnes Te-Deum, com largas capas de asperges recamadas de ouro e fulgurantes de pedrarias, com tochas numerosas e thronos de luzes á hostia em custodias magnificas, pelas representações da opera que Farrobo dirige, pelas soirées do seu theatrinho das Laranjeiras, um eden de merceeiro rico: otia tuta! As egrejas estão abandonadas e vasias, nus os altares; os frades vagueiam perseguidos, expulsos dos seus conventos, esmolando. Fundiram-se as alfaias, andam as livrarias dispersas, vendidas a peso, para embrulho nas lojas; e os templos profanados pelo padre Marcos—Papam habemus Marcum!—servem de estrebarias ou graneis; os conventos aquartelam soldados ou esperam os teares e engrenagens com que o proteccionismo setembrista promette regenerar as industrias. Já se não ouvem bemditos pelas ruas; em S. Carlos dá-se com geral applauso o Turco em Italia; e Pizarro, logo solto e livre depois da morte de D. Pedro, põe na bocca de todos a palavra popular do heroe da opera: «Voglio mangiare! voglio mangiare!» (Apont. etc.)