Em taes apuros valia Saldanha, cuja reputação militar servia ainda perante extranhos de fiador ao nosso descredito. Howard, em Lisboa, suspendeu a execução das ordens; Saldanha partiu para Londres e obteve-se uma combinação de pagamentos a prazos, appellando para a generosidade dos nossos protectores pela bocca do marechal diplomata.

Quando as camaras se abriram no principio do anno, Rodrigo, á frente do gabinete, ouviu sereno as apostrophes setembristas: era um lacaio de Palmerston, e o governo portuguez uma delegação da Inglaterra. (V. os debates, sessão 40; espec. o disc. de José Estevão em 6 de fever. dito do Porto-do-Pireu) Ouviu, e convencido de que os inimigos se não convertiam, dissolveu o parlamento (25 de fevereiro): necessitava gente sua, necessitava silencio para poder resolver a questão ingleza. Fez novas eleições e, como sempre succedera e succederá, venceu-as. O paiz era unanimemente ordeiro. Tres mezes depois (26 de maio), reuniu-se a camara nova, mas—oh, triste sorte dos habeis!—o que se dissolvia era a maioria. Formou-se uma colligação para a restauração da CARTA pura (Seabra-Magalhães), contra o ecclectismo do governo ordeiro que não dava suficiente ordem.

Com effeito o setembrismo, expulso da camara pela genuinidade dos processos de representação nacional, appellara para a revolta. Foi d’então que Rodrigo viu o seu erro, aprendendo a comprar os deputados como se faz ás casas, em vez de lhes disputar o ingresso no templo da nação. D’esta vez, porém, o mal estava feito: não havia cura. No dia 11 de agosto uma turba de gente sublevada reuniu-se no largo da Estrella, descendo a convidar para uma revolução a guarda das côrtes, a do banco e a de caçadores 2. A tropa não quiz; e elles foram então para arrombar o arsenal do exercito, no Caes dos soldados, mas encontrando uma força que os deteve, debandaram. Era nada como facto, mas grave como ameaça. O setembrismo, tão liberal, não se convencia, nem se curvava ao juizo-da-Urna! Duas semanas depois do caso de Lisboa, chegou a noticia da revolta das guarnições de Castello-Branco e Marvão (26). O tenente-coronel Miguel-Augusto arrastara os soldados: era uma guerra civil. Mandaram-se tropas que facilmente repelliram os pronunciados; e fugindo, os soldados rebeldes mataram na Guarda o tenente-coronel, debandado, emigrando para Hespanha, ou submettendo-se. A ordem vencia a hydra da revolução, mas não podia vencer a desordem que se formava.


Conhecemos assaz os motivos, isto é, o caracter incoherente das doutrinas da situação ordeira a que o romantismo não podia dar principios, pela razão breve de os não ter para si. Elle era um genero litterario apenas; e o governo era tambem um genero de governo: o genero sceptico, ainda prematuro. Não ha nada que mais exalte as doutrinas e exacerbe os odios do que a fome, e então havia fome entre nós: só quando chegasse uma tal ou qual fartura, acabaria o periodo dos systemas e das revoltas, o reinado da phrase e do tiro. Então venceria, sem duvida, Rodrigo. Por emquanto, o seu scepticismo offendia os ingenuos, e como não dava o que faltava sobre tudo—pão!—era duas vezes condemnado.

O primeiro clamor vinha de turbo dos empregados-publicos, a que, sobre os pontos e atrazos, se tiravam dez por cento (6 de novembro de 41). Se no reino, Rodrigo, ao leme da Urna, levava o barco a salvamento; se Costa-Cabral, na Justiça, mostrava o que podia, a pobre Fazenda, coitada! via succederem-se os medicos (Ferraz, Miranda, Tojal), sem que surgisse um digno successor ao velho Law reformado. Não podia durar tampouco, por mais tempo na Presidencia, o plastron que Rodrigo escolhera; e força foi reorganisar a tripulação do barco ordeiro (9 de junho de 41). Aguiar tomou o lugar de Bomfim; e na Fazenda pôz-se um homem novo, crédor de esperanças, que em pesados relatorios tinha mostrado saber as operações. Poderia Avila descobrir a operação mestra de encher o Thesouro? Se o fizesse consolidava a Ordem, porque já de certo, a este tempo, o dinheiro poderia mais do que as doutrinas. Mas não o fez: era impossivel! E em vez de encher, vasou ainda mais os bolsos dos pobres empregados, como já se disse.

Nas camaras, o homem novo, de quem se exigia um impossivel, soffreu as coleras de Garrett, e os epigrammas do conde da Taipa que reclamava o ponto para todas as dividas, salvo os consolidados. (Sess. de 15 de julho e 14 de agosto) Cá de fóra, batiam a Ordem, o Nacional e o Constitucional, os setembristas e os cartistas scisionados. Ferrer e Seabra, ambos colericos, faziam um tal escandalo, que o grave economista Marreca, com o seu tom manso, a custo evitou o pugilato. (Sessão de 14 de agosto) O riso de Rodrigo amarellecia, vendo sossobrar o barco da sua dissimulada ambição contra os cachopos da penuria amarga.

«O verdadeiro e unico remedio para as finanças de Portugal é uma banca-rota universal, e d’ahi por diante rigorosa economia. Desenganae-vos: este é o especifico, tudo o mais são palliativos; e a elle havemos de ir: não sei quando, mas a elle iremos. Se os homens de setembro tivessem lançado mão d’elle, os homens de setembro seriam eternos no poder, porque em Portugal ha de governar inabalavel o governo que tiver o dinheiro de que precisar.» (Hontem, hoje e amanhã) A sabedoria falava pela bocca do author do opusculo anonymo: o programma da futura Regeneração estava escripto.


Mas nem as condições da Europa nem as de Portugal consentiam ainda que elle se pozesse em practica. Não se tinha accentuado ainda a epocha industrial-utilitaria que a larga applicação do vapor ás manufacturas e á viação veiu a abrir; e havia em França e na Hespanha, para onde nós olhavamos, uma doutrina vencedora, acclamada, que parecia a fórmula definitiva do liberalismo. Era a aristocracia dos ricos, apoiada a um absolutismo hypocrita no throno, e a uma burocracia no governo. Guizot, Gonzales-Bravo, pareciam modelos a seguir; e Costa-Cabral sentiu em si força para os imitar, voltando-se desordeiramente contra a Ordem de que era ministro, para organisar a outra, a definitiva ordem liberal.