É já nossa conhecida a pessoa do ministro da Justiça ordeiro. Vimol-o, rabido, a declamar nos clubs; vimol-o depois a dirigir braço de Sá-da-Bandeira para suffocar os tumultos de 38 em Lisboa. Os setembristas começaram desde logo a odiar o transfuga, chamando-lhe ambicioso, como se alguem, sem ambição, alguma coisa conseguisse! A nós cumpre-nos estudar o valor d’essa ambição, em vez de condemnar puerilmente o sentimento gerador de todos os actos humanos. Esse ambicioso era uma resurreição de Pombal nas qualidades e nos defeitos. Se tivesse encontrado ainda de pé alguma ordem verdadeira, alguma authoridade fixa, como a que o predecessor achou no absolutismo, teria sido tão grande como elle foi. Caiu, por falta de apoio: assim todos tinham caído, porque nada se mantém de pé quando falta o chão firme de uma doutrina enraizada nos animos, consistente e forte. Ha um modo de se conservar erecto, no meio do vacillar de todas as cousas, ha; e é quando, sem andar, se dispendem as attenções e os cuidados inteiros nos equilibrios necessarios á attitude. Parece então que se existe, mas é apenas uma sombra de vida ...

Ao tempo em que nos achamos, havia ainda forte desejo de viver; e além d’isso um mal-estar, uma pobreza, que forçavam ao movimento. Cabral fôra demagogo: por calculo, para gritar tão alto, que podesse vencer na concorrencia do leilão politico? por sinceridade e opinião, abandonada depois? Elle o sabe; e a nós importa isso pouco. Na politica, os homens são vehiculos de planos varios: a esses planos, mais do que ás virtudes privadas, attende a historia. Quando ella encontra um santo, como Passos, abençoa-o; quando encontra um forte, como Cabral, admira-o; quando encontra um habil, como Rodrigo, applaude-o. Na arte de governar os homens, a força e a habilidade valeram, valerão sempre mais do que a virtude. Costa Cabral padecia da falta de plasticidade do seu émulo no Reino: era hirto, duro, secco, aggressivo, violento, como a doutrina que fizera sua. Sendo Portugal, como de facto era, um reflexo da França, acodem aos bicos da penna as approximações: Cabral era um Guizot, Rodrigo um Thiers.

Qual venceria: a habilidade sceptica, ou a força doutrinaria? Em França, em Portugal, venceu temporariamente a segunda. Foi necessario 48 lá, e cá uma guerra triste e lenta, para destruir a doutrina do argentarismo. Não venceu elle, porém depois, com a força das cousas, de um modo real? Não foram Thiers-Rodrigo os seus instrumentos definitivos, mas sem consciencia, nem força, já, para o defenderem como systema?


Na administração de Lisboa, Cabral dera em 38 a medida dos seus talentos; no ministerio da Justiça, agora, portanto, durava a ordem provisoria, ia-se revelando cada vez mais o seu genio pombalino. Restabelecidas as relações com Roma, que desde 34 estavam suspensas, o ministro reorganisou a machina ecclesiastica, preenchendo as sés, regulando, construindo tudo o que a anarchia derrubára. Outhorgando a Novissima reforma judiciaria, adaptava a legislação antiga aos principios novos estabelecidos pela revolução, organisando tambem o pessoal da justiça, pondo regra e ordem n’esse deploravel cáos. Não era um demolidor, a continuar a obra de Mousinho, não era um philosopho, guiado por principios absolutos: era um homem prático, laborioso, intelligente, serzindo, remendando, alinhavando os farrapos velhos e novos, os retalhos ainda existentes do passado, com as amostras, breves e já desbotadas, do futuro.

A sua fama crescia, e trabalhando, agora e sempre, conquistava uma influencia muito mais solida do que a do émulo com as suas manhas e ardís. O scepticismo e a ironia, com as artes e os ditos, vencem e por vezes seduzem; mas a impressão é breve, e fica sem raizes. A força ganha uma tenacidade differente. A força pessoal do homem que vinha subindo era mais uma causa de naufragio para a ordem apparente das esperanças de Rodrigo. Já o astuto chefe percebia que, em vez de guiar, era dominado; e empregava todas as suas artes para encobrir a derrota. Depois de certa votação, obtida na camara pela influencia pessoal de Cabral, Rodrigo á saída, n’uma effusão de agradecimento, deu-lhe um beijo. (Apont. hist. cit.) Era um beijo de Judas, a denuncia de um condemnado, a declaração de uma guerra que appareceu logo?

Esta desordem do gabinete ordeiro trazia para o governo a scizão que desde o começo lavrara na direita da camara. Uma parte d’ella seguia Rodrigo e a sua ordem; outra queria uma ordem melhor,—a restauração da CARTA—e punha em Cabral as suas esperanças. Afinal, apparecia um homem, capaz de metter hombros á historia demorada, dramatica e triste da renovação de Portugal. Era baixo, macilento, commum e vulgar de aspecto? (Lichnowsky, Record.) E quem pensava ainda no liberalismo palmellista, aristocratico? pois não vencera decididamente a burguezia de letrados e agiotas?—Tinha no olhar e no sorrir um não sei quê de falso? (Costa Cabral em relevo, anon.) A esperteza sempre foi condão de letrados e judeus. A testa era breve, sem nobreza, o cabello corredio e tudo regular «como se diz nos passaportes»? (Ibid.) Assim devia de ser, porque o typo dos democratas byronianos não convinha á gravidade da doutrina. Correcto, commum, severo, Cabral, porém, tinha um fraco: era irascivel, apaixonado e violento. Diverso temperamento, mais frio e magistral, como o de Guizot, convinha ao papel que tomára para si. Em vez de expôr sem discutir, como fazia o ministro de Luis-Philippe, Costa-Cabral perdia-se arrebatado por uma ardencia meridional. Brilhavam-lhe os olhos como carbunculos, (Lichnowsky) gesticulava, gritava a ponto de enrouquecer. Era um temporal cada um dos seus discursos: mas para ser inteiramente forte deveria poder encobrir melhor a sua força. A voz soava falsa, sem espontaneidade, nem fluencia: era-lhe necessario irritar-se para ser eloquente. Não tinha correcção, nem elegancia no dizer, apenas virulencia. (Costa Cabral em relevo) Mudara de opiniões, mas a fala, o gesto, a oração eram os proprios do antigo demagogo, e mais naturaes dos Camillos do que do chefe da doutrina. Rodrigo, ao vêl-o, possesso de ira, perder o sangue-frio e o governo, devia esperar que essa fraqueza (Hontem, hoje e amanhá) lh’o viria a entregar rendido, depois de algum combate infeliz. Mas enganava-se. A audacia do tribuno conservador, a força que lhe davam uma opinião e um plano sustentavam-no: cada batalha era uma victoria. Rodrigo descia sempre. «A dedicação por uma convicção politica cessa ordinariamente quando periga a segurança individual: n’esta terra parece que os homens activos e energicos, os que a si proprios se sacrificam, são ainda mais raros do que nos outros paizes.» (Lichnowsky, Record.) Percebe-se ou não, o motivo da ascendencia crescente do homem novo?

Esse fraco da irascibilidade, da ardencia no ataque, da virulencia nas respostas, do plebeismo da phrase; esse fraco, importante em qualquer camara, não o era tanto na portugueza, pouco habituada a obedecer á authoridade moral do saber e ao prestigio do talento. Salvos raros momentos em que o portuguez, como meridional, se deixava embalar pela musica de algum orador-poeta; salvos esses momentos breves, apagadas essas impressões mais estheticas do que moraes ou intellectuaes, o temperamento chão e violento levava a melhor, e a camara parecia uma «espelunca de club revolucionario. Estava-se como na rua, jogando-se com o lodo e as pedras da calçada.» (Lichnowsky, Record.)

Tal era a ordem dos ordeiros, em toda a parte, no governo e nos partidos, no thesouro e no parlamento. Evidentemente, o liberalismo não marchava; e era indispensavel restaurar qualquer cousa, erguer qualquer pessoa. Quê, senão a CARTA? Quem, senão Cabral?

2.—A RESTAURAÇÃO DA CARTA