O symptoma mais decisivo do completo descredito do setembrismo foi o facto da eleição da camara municipal do Porto nos primeiros dias de 42. O Porto, baluarte dos irmãos Passos, fóco da democracia jacobina, virado assim! acclamando a rainha! sem um viva para a constituição nova! (2 de janeiro) A cidade burgueza, celebre em tumultos desde os tempos feodaes, preparar-se para um tumulto conservador?

Cabral já era o homem indicado por todos como um Monk cartista; e ou foi elle que dirigiu as manobras do Porto, ou approvou-as, e adheriu quando lhe escreveram chamando-o. (Apont. hist., cit.)

Era ministro: não podia ir, assim, claramente, rebellar-se contra o governo de que fazia parte. Pretextou pois negocios domesticos, e partiu: sendo recebido entre palmas e vivas no caminho da egreja da Lapa, onde foi resar, como os soberanos, quando entravam nas suas terras (19 de janeiro). Formou-se logo uma JUNTA (27), voltando-se contra o inimigo as armas de que elle usara. A guarnição levada pelo general Santa-Maria apoiava inteira esta revolta singular, reproducção das de 23 ou 24, declarando o soberano coacto, e propondo-se a libertal-o.

Taes eram as palavras do ministro aos seus companheiros, tal a opinião corrente no Porto. A rainha, positivamente coacta, elegera Cabral para a libertar; elle vinha com um caracter de enviado do throno pedir aos povos que lhe accudissem, contra outros povos em cujas mãos se via perdido. Era verdade? parece que sim; parece que desde 38 a rainha em pessoa, ou as influencias diplomaticas extrangeiras que a rodeavam, consideravam Cabral o seu homem; parece que o ministro, além de ir dia a dia demolindo em publico o seu émulo Rodrigo, cudilhava-lhe a finura com um calculo mais seguro: apoiar-se ao throno, contra a liberdade e suas fórmulas, batendo o systema na raiz, com a unica força ainda um tanto positiva: a monarchia.—Se em verdade não foi assim, e a restauração do Porto não procedeu de ordem do paço, é fóra de duvida que a audacia do restaurador agradou á soberana, conquistando-lhe para sempre uma adhesão temeraria. Ou Cabral seguia ordens, ou superior ainda aos fieis que só obedecem, sabia perscrutar os desejos e antecipar os mandados.

Outros negam que houvesse no paço o proposito de uma restauração, e fazem de Cabral um traidor que forçou a rainha a adherir a poder de intrigas. (Costa Cabral em relevo) Não é inverosimil esta versão perante a historia posterior? Admira tanto que a rainha, conspirando contra a constituição, hesitasse e temesse? Que ordens podia elle dar em publico, senão ordens legaes? Coragem não lhe faltava, para amarrotar as leis e atiral-as como bolas de papel velho, sujo, á cara dos seus contrarios; fizera-o em 36 em Belem, e havia de repetil-o com melhor fortuna, dez annos depois no mesmo lugar. Porém agora, se plano havia, o plano era diverso do antigo. A rainha já não carecia de chamar soldados inglezes: tinha os de Santa-Maria; nem precisava de um belga, porque achara um portuguez. O seu throno ganhava raizes, á medida que as do setembrismo apodreciam.

Em Lisboa, o governo via-se nullo, impotente. Fugira-lhe a sua unica força: restava apenas a manha que mordia os beiços, sentindo-se absolutamente vencida pela audacia do rival temerario. Diziam-se as palavras mais extravagantes: o caso do Porto só era comparavel a Alcacerquibir! um fim de mundo! E na afflicção atordoada escreviam-se proclamações que a rainha assignava, e corria-se a casa do caduco Palmella, como quem appella para a homœopathia nos casos perdidos. A prudencia e a moderação—homœopathia, ou agua-pura da politica—salvariam o doente? Ás vezes, com effeito, a natureza deixada a si faz mais e melhor do que os medicos: mas a natureza estava agora do lado da força, e todos hesitavam, todos se sumiam, presentindo a fatalidade do fim. Rodrigo tomava um ar solemne, vendo que teria de recomeçar na opposição o papel de chefe de um partido cartista genuino, inimigo do cabralismo, para no dia da victoria final soltar a sua ultima risada sobre as ruinas de todos os partidos.

No Porto hesitava-se. Talvez se contasse com uma adhesão immediata da rainha; e em vez d’isso viera a proclamação condemnatoria e o ajudante Sarmento que teve largas conferencias com a JUNTA. Corria que a rainha, pessoalmente, desapprovava, repellindo toda a idéa de cumplicidade. Cabral passava por um impostor, (Costa Cabral em relevo.) e a ser exacta esta versão, achando se perdido, pedira chorando aos companheiros que o não deitas-sem ao mar. (Ibid.) Conhecedor da restauração tramada, teria querido confiscal-a em proveito proprio, dando-se como confidente e mandatario da rainha! É o que alguns dos restauradores allegam. Santa-Maria bruscamente responderia: «O meu fim é restaurar a CARTA, e não, fazer ministerios: avenham-se lá como poderem». (Ibid.)

Como quer que fosse, o facto é que as tropas saíram do Porto para Coimbra, (5 de fevereiro) indo Cabral na divisão. Se a rainha o não encarregara a elle da empreza, é fóra de duvida que adheria ao movimento. O ministerio perdera as estribeiras, e a rainha, segura de si, vendo a mudez do reino, a facilidade com que as tropas sublevadas o atravessavam, constitucionalmente annuia a tudo. Cabral era o medo dos de Lisboa; o seu jornal (Correio-portuguez) fôra supprimido. Avila que tanto lhe devera, renegava-o, lançando-se nos braços do inimigo e echendo as columnnas da Revolução de diatribes contra elle, e contra Terceira que, á frente da sua divisão, esperava na capital de braços abertos a divisão de Santa-Maria. Os ministros levavam á rainha, e ella assignava, uma carta para Cabral, convidando-o a submetter-se. (Apont. hist. cit.)

Era uma comedia? Era. Estava-se no entrudo. E do entrudo se chamou ao ministerio novo, em que Avila ganhara a conservação do lugar á custa dos artigos da Revolução. Era de entrudo o ministerio setembrista-palmellista que durou os tres dias (7-9) de farça, chamando em vão pela guarda-nacional para o defender, servindo de ridicula passagem da situação ordeira caída em desordem, para a situação cartista proclamada pela tropa. (Ibid.)

Cabral e Santa-Maria continuavam em Coimbra, esperando o que aconteceu. Na madrugada de 8 uma salva real do castello annunciou a Lisboa a restauração da CARTA. Que fez o ministerio do entrudo? Uma entrudada, uma pseudo-revolução. Abriu os arsenaes, mandou desembarcar os marujos e armar o povo, fazer barricadas. Abandonado pela tropa, o governo appellava para as turbas: mas quem era esse governo? Palmella o conservador aristocratico; Sá-da-Bandeira, que em 38 desarmara, fusilara no Rocio esse povo para que appellava hoje. Era de facto um entrudo, não só o governo, como tudo: o systema, exprimindo-se na voz de falsete das mascaras; os homens, que dia a dia mudavam de dominós e caraças. Palmella descia para a rua; Cabral subia dos Camillos para o paço; Sá-da-Bandeira ia aos tombos; Passos estava esquecido e só; Rodrigo despeitado contra si proprio. Apenas Terceira, de espada á cinta, conservava o seu papel de condestavel do throno.