Vê-se nas Georgicas, liv. 4. que a composição dos Jardins, de que fallão, he mui singela, e naturalissima, e que se acha nelles o util com o aprazivel: pomos, flores, hortaliças. Mas estes Jardins são os de hum ordinario Habitante dos Campos, Jardins, tais como, com hum gosto simples, quizera o Sabio ornallos, e cultivallos pela sua mão; tais como folgaria de os aformosear o amavel Poeta, que os descreve. Não tratou daquelles Jardins famosos que o luxo dos Vencedores do Mundo: os Crassos, os Lucullos, os Pompêos, os Cesares, carregárão das riquezas da Asia, e dos despojos do Universo.

[(Pag. 5. vers. 20.)]

De Alcino o luxo, o gosto, ainda rude,
Punha a curto Vergel módico enfeite, etc.

He hum monumento precioso da Antiguidade, e da historia dos Jardins a descripção que faz Homéro do de Alcino. Vê-se, que ella distava pouco do nascimento da Arte; que todo o seu luxo estava na symmetria, e ordem, na riqueza do chão, na fertilidade das arvores, nas duas fontes, de que era ornado: e todos os que quizessem jardim para gozar, e não para mostrallo, escusarião outro.

[(Ibid. vers. 22.)]

Eis com arte maior, mais sumptuosa
Jardins nos ares Babylonia ostenta.

Parte destes Jardins suspensos ainda durava mil, e seiscentos annos depois da sua creação; elles forão o assombro de Alexandre, quando entrou em Babylonia.

[(Ibid. vers. 24.)]

Os Latinos Heróes, de Marte os Filhos,
Depois que Roma agrilhoava o Mundo,
Davão repouso ameno á gloria, ao raio
Em frescos hortos, que a victoria ornára.

Existe monumento inestimavel do gosto, e fórma dos Jardins Romanos em huma Carta de Plinio Junior, e nella se lê que já então conhecião a arte de affeiçoar as arvores, de dar-lhes diversas figuras de vasos, ou animais; que a Architectura, e o luxo dos Edificios erão dos primarios ornamentos dos Parques; mas que todos tinhão hum objecto de utilidade, objecto em demasia esquecido nos Jardins modernos.