OS JARDINS,
POEMA.
CANTO QUARTO.
Dos campos o espectáculo não posso,
Não posso abandonar; e quem se affoita
A ter em pouco o objecto de meus cantos?
Elle inspirava de Virgilio a Musa,
Seduzia a de Homero. Homero, aquelle
Que de Achiles cantou a horrivel sanha,
Que nos pinta o Terror jungindo os Brutos,
No dardo voador silvando a Morte,
O embate dos escudos, o tridente
Do equóreo Numen abalando as torres;
Esse Vate immortal, de Esmyrna o Cysne
Se apraz de matizar o horror da Guerra
Com bosques, prados, montes: na frescura,
No riso destes quadros tão suaves
Desafoga os pinceis; e quando apresta
De Thetis para o Filho arnez terrivel,
Se os combates, e os sitios nelle grava,
Se mostra o Vencedor de pó coberto,
Se apresenta o Vencido envolto em sangue,
Buril afagador depois movendo,
Traça a vinha, os rebanhos, selvas, pastos.
Vestido o Heróe destas imagens doces,
Parte, e leva por entre horrendas Turmas
A innocente vindima, e ricas messes.
A teu estro sempar, Cantor divino,
Cabe reger as marciais Phalanges:
He reger os jardins meu brando emprego.
Já minhas leis conhece a dócil Terra:
Ei-la relvosa; no tapete alegre
A Mãi das flores lhe entornou seus mimos,
E arvoredos croárão rochas, agoas.
Para gozar destes brilhantes quadros,
Agora em campos, que discorre a vista,
E por baixo de abobadas escuras,
Gratos caminhos abrirei. Mil scenas
Criará minha vóz por toda a parte;
As artes guiarei para adornallas:
E o divino Cinzel, e a Architectura
Nobre, insigne, hão de emfim destes lugares
Encantadores completar o ornato.
De nossos passos engenhosas guias,
Aos olhos os jardins patenteando,
As ruas devem, pois, agraciallos.
Nos recentes, porém, não se abrão ruas,
Nas findas plantações melhor se escolhem.
Aos mais lindos aspectos as dirige.
Repara como, se aos Estranhos mostras
Do teu trabalho os fructos, como destro
Buscas o bello, o que não presta evitas;
Sitios formosos, ao passar, lhe apontas,
Lhe guardas para a volta outras bellezas,
O prendes, o entretens de pasmo em pasmo,
Em scena que nascer faz outra scena;
E assim satisfazendo, ou provocando
Sempre os desejos seus, não poucas vezes
Retardas seu prazer para espertallo.
Os teus passeios a ti proprio imitem.
Foge, foge, tambem, nas fórmas delles
Os filhos do máo Gosto, os vãos systemas,
Pela moda abraçados. Lá no campo,
Como cá na Cidade, a móda reina.
Quando a ordem symmetrica, e pomposa
De Italicos Jardins luzio na França,
Tudo se deslumbrou, cegou-se tudo
Com esta arte fulgente. Huma só planta
Não negou ao cordel obediencia:
Em toda a parte se alinhárão todas;
De hum lado, e de outro lado enfileiradas,
Alamedas eternas se estendêrão,
Veio outro tempo emfim, veio outro gosto.
De bellezas mais livres avisárão
Aos Francezes Jardins Jardins Britannos.
Só linhas ondeantes, e passeios
Só tortuosos desde então se virão.
Farto de vaguear, debalde o termo
Está fronteiro a mim: cumpre que ainda,
Cumpre que, a meu despeito, erre, serpêe;
Que, importuno artificio praguejando
Mil, e mil vezes, sem cessar procure
Hum fim, que sem cessar de mim se aparta.
Isto evita: os excessos durão pouco.
Destes varios caminhos cada especie
Tem seu lugar. Hum me conduz a vistas
Pasmosas, que de longe os olhos fixão,
Nutrem a expectação; outro me sóme
Nessas mudas estancias, que parece
A algum fim, de proposito, velára
Arte mysteriosa; mas tornemos
Natural o facticio labyrintho,
E não capricho, precisão se antolhe.
Diversos accidentes, encontrados
Pelo caminho seu; agoas, e bosques,
Como igualmente o chão, devem regello.
Se quero huma feliz docilidade
Na fórma sua, se a tristeza odeio,
E insipidez de alinhamentos longos,
Mais detesto hum passeio embaraçado,
Que, de ferida serpe á semelhança,
Em convulsivas rôscas se entrelaça,
Com gyros duplicados cansa, enjoa,
E ríspido, uniforme, caprichoso,
O terreno atormenta, e passos, e olhos.
Ha curvas naturais, ha torcicólos,
De que ás vezes os campos dão modelo.
Do carro a roda, a pista dos rebanhos,
Que em passo negligente a Aldêa buscão;
A Pastorinha, que, no prado abstracta,
Vai talvez entretendo a fantasia
Em visões amorosas: isto ensina
Rodeios mollemente volteados.
Longe, pois, os contornos angulares,
Longe de teus passeios, mais ainda
Quando ao fim te encaminha hum longo gyro.
Co’ prazer galardôe-se a fadiga.
A arte se imite dos Poetas grandes;
Releva, que ouses tanto. Se alta Musa,
Andando, algum desvio a si permitte,
Mais que o caminho a digressão me agrada.
Niso o seu doce Euríalo defende,
No sepulcro de Heitor a Esposa geme.
Assim teu artificio me extravie
Por gratas illusões, assim me alegre
Com risonhos objectos a passagem;
Tocando o termo, indemnisado eu fique
Da extensão que soffri, meus olhos gozem
Aspectos singulares, episodios
De vivente Poema. Além me chamão
Verdes, propicias grutas, onde sempre
A frescura, o silencio, as sombras morão.
O pensamento alli precede aos olhos.
Mais longe vitreo lago o Ceo reflecte,
E confusa acolá, como fugindo,
Assoma perspectiva immensa, e nobre.
Ás vezes bosquezinho alegre, ameno,
Mas em si recolhido, e ricamente
Por ti, e a Natureza adereçado,
De flores, e de sombras abundante,
Parece que te diz: «detem-te: ah! onde
Podes estar melhor?» Sùbito a scena
Se altera: eis em lugar de gosto, e riso
Paz, e melancolia, eis o repouso,
Eis a grave mudez, onde se embebe,
Onde a meditação se alonga, e pasce.
Lá com seu coração conversa o Homem,
Attenta no presente, entra o futuro,
Da carreira vital nos males pensa,
Pensa nos bens, e recuando a vista
Ao tempo que voou, se apraz ás vezes
De perceber no circulo dos dias
Esses poucos instantes, ai! Tão caros,
Tão curtos! Essas flores n’um deserto,
Essas quadras da vida, a que lhe apontão
Saudades do prazer, e até da magoa.
Teme, pois, imitar os que atavião
Friamente os jardins, os que só querem
Objectos festivais, e lisonjeiros.
Nada em suas paizagens he sublime,
Nada atrevido: tudo são latadas,
Tudo elegantes bosques: sempre flores,
Sempre o Templo de Flora, ou dos Amores:
A alegria monótona aborrece.
Sahe tu desta commum, cansada trilha;
Contrastes imagina interessantes,
E affoito os aventura. Entre si podem
Encontrados effeitos soccorrer-se.
Eia, segue o Poussin. Elle apresenta
Em campestre festejo alvas Serranas,
Robustos Aldeãos, bailando á sombra
Dos ulmeiros frondosos, e alli perto
Impressas vozes taes sobre hum sepulcro:
Já fui, já fui tambem Pastor da Arcadia
Este painel dos gostos voadores,
Do nada da Existencia, está dizendo,
Ou parece que diz: «Mortais, cuidemos
Em lograr, tudo vai desvanecer-se;
Jogos, danças, Pastores.» Dentro n’alma
Ao jubilo vivaz, alvoroçado
Mansa tristeza por degráos succede.
Imita estes effeitos. Não receies
Em quadros ledos pôr sepulcros, e urnas,
Monumento fiel das magoas tuas.
Ah! Quem não tem chorado alguma perda
Rigorosa, cruel! Eia, associa,
Longe do Mundo leviano, e cego,
Os bosques, agoas, flores com teu pranto.
Vem hum amigo em tudo Almas sensiveis
Já co’as sombras pacificas se curvão
Para abraçar a campa, onde suspiras,
O Teixo, o agudo Pinho, e tu, Cipreste,
Das cinzas protector, leal aos Mortos.
Teus ramos, que affeiçoão genios tristes,
Deixão a gloria, o gosto ao Loiro, ao Myrto;
Do Guerreiro, do Amante a venturosa
Arvore tu não es, porém teu luto
Compadece-se, e diz co’as nossas penas.
Em todos estes monumentos nada,
Nada de apuros vãos. Aliar pódes
Acaso, ante estes lugubres objectos
A arte co’a dor, e co’á riqueza os campos?
Longe principalmente o fingimento,
Longe tumulo falso, urnas sem magoa,
Que o capricho formou; longe as estatuas
De animal ladrador, de ave nocturna:
Isso profana o luto, insulta as cinzas.
Ah! Se as de algum amigo alli não honras,
De envelhecidos Teixos lá debaixo
Não vês a sepultura onde esconder-se
Hão de ir aquelles, que, por ti curvados,
Por ti suando sobre ingratos sulcos,
No seio da indigencia a morte esperão?
Pejo de ornar-lhes o sepulcro humilde
Terás acaso! He certo, que não pódes
Gravar illustres aventuras nelle
Desde o incerto crepusculo, em que os chama
Ave madrugadora a seus trabalhos,
Té ao serão em que a familia tenra
Com elles vai sentar-se ao lar, que estala,
Em paz, e em lida igual seus dias correm.
Nem guerras, nem tratados os distinguem:
Nascer, soffrer, morrer, eis sua historia.
Mas o seu coração ah! não he surdo
Da memoria ao rumor. E qual dos Homens
No momento fatal da ausencia eterna,
Qual se não volve, e tristemente alonga
A vista pelos campos da Existencia?
Não tem na idéa de deixar saudades
Algum gosto, e dos olhos de hum amigo
Não espera huma lagrima? Epitafios
Para adoçar-lhe a vida, a morte lhe honrem.
Aquelle, que, maior do que a Fortuna,
Servio seu Deos, seu Rei, familia, patria,
E o pudor imprimio no rosto á filha,
Merece que de pedra menos bruta
A campa se lhe dê: suas virtudes
Contem-se alli, e as lagrimas da Aldêa;
Gravem-lhe sobre a lousa: «aqui descansa
O bom filho, o bom pai, e o bom consorte.»
Encanto involuntario ha de mil vezes
Teus olhos attrahir ao sacro sitio.
E tu, que estás cantando, antes carpindo,
Debaixo destas Arvores piedosas,
Tu, primeiro que as deixes, Musa minha,
Suspende em oblação tua grinalda
Na rama veneravel. Muito embora
Outrem celébre em verso a Formosura;
Nos gostos engolfada a Musa de outrem
Da cabeça jámais deponha o myrto;
Télas trajando, fulgurantes de oiro,
Só da meiga alegria entôe os hymnos:
Verso consolador tu dás ás cinzas,
E primeiro que as outras a mão tua
Algumas flores sobre as campas sólta.
Para baixo de sombras prazenteiras
Voltemos, que he já tempo. A Architectura
Em selvoso lugar inda me espera
Para adornallo de edificios bellos.
Já não do luto os monumentos tristes,
Mais eis gostosos sitios, que em mil faces
Entre a verdura seu primor offertão.
O uso, porém, lhe approvo, e tolho o abuso.
Desterra dos jardins montão sem ordem,
De edificios diversos, essa pompa
De perdulária moda: os Obeliscos,
Rotundas, e Kioskos, e Pagodes;
Esses cáhos de ingrata Architectura,
Romanos, Gregos, Arabes, Chinezes;
Esterilmente profusão fecunda,
Que o mundo inteiro n’um jardim concentra.
Não procures tambem ocioso ornato,
Antes disfarça em util o aprazivel.
De seu Senhor thesoiro, e seu recreio,
A Herdade exige campezino adorno.
Lares que sobre o campo ergueo o Orgulho,
Magnifico Solar não a desdenhe;
As riquezas lhe deve, e delle ao fausto
Sobresahe tanto a singeleza della,
Quanto de Armida aos artificios todos
Sorriso ingénuo de acanhada Virgem.
A Herdade! A este nome Hortos, colheitas,
O pastoril Reinado, o emprego doce,
Os innocentes bens dos aureos tempos,
Cujas meigas imagens enfeitição
A infancia, que he na vida a idade de oiro,
E tanto a infancia minha enfeitiçárão;
Isto, ah! Isto, que idéas, que saudades
Dentro do coração me não desperta!
Vem, já das aves tuas oiço o canto;
Já chião carros, da abundancia ao peso,
Que as tulhas te demandão, e a compasso
Cahe o instrumento que debulha os milhos.
Orna, pois, o teu predio, mas com tanto
Que, pródigo, em palacio o não convertas.
Por seu caracter simples, e elegante
Entre os Jardins, ou Quintas he a Herdade
O mesmo que entre os versos he o Idyllio.
Pelos Numes dos campos, ah! desvia
O luxo audaz deste lugar modesto,
Desvia-o sempre; de occultar não trates
Nem os lagares teus, nem teus celeiros;
Ver quero o trem das ceifas, das vindimas,
Ver o crivo, a joeira, onde co’a palha
O grão doirado salta, e recahe puro;
A grade, o trilho, tudo o mais da Granja,
Sem pejo aos olhos meus se manifestem;
Mórmente de animais o móbil quadro
Lhe dê por dentro, e fóra hum ar vivente.
Não vemos do solar o adorno estéril,
A graça inanimada, a immovel pompa:
Debaixo destes tectos, nestes muros
Tudo está povoado, e tudo he vivo.
Que aves, diversas pela vóz, e instincto,
Que no abrigo da telha, ou colmo habitão,
Republica, Nação, Familia, Reino,
Me entretem com seus brincos, seus costumes!
Eis á frente de todas gyra o Gallo,
O Gallo, feliz chefe, e pai, e amante,
Que, Sultão sem molleza, distribue
Pelo Serralho alígero a ternura;
Une ao jus do valor o da belleza,
Impera carinhoso, altivo afaga;
Para mandar, para gozar nascido,
Nascido para a gloria, ama, combate,
Triunfa, e logo seus triunfos canta.
Ha de aprazer-te o ver como elles brincão,
Como contendem; seu amor, seus odios,
E até sua comida. Assim que assoma
Com a teiga nas mãos a Dispenseira,
De repente a Nação voraz, e leve
Vôa daqui, dalli, de toda a parte
Em turbilhão ruidoso, e quasi a hum tempo.
O sôfrego tropel junto á que o ceva
Subito fórma hum circulo apinhado;
Ha tais que, sempre expulsos, tornão sempre,
Perseguem o comer, e até na palma,
Affoitos Parasitos, vem furtallo.
Este Povo domestico protege;
Não soberbos, mas sãos seus pousos sejão.
Decoradas estancias que lhe prestão?
Marmóreos bebedoiros, e aureas grades?
Mais lhe apraz, muito mais, hum grão de milho.
Já la Fontaine o disse. Oh la Fontaine!
Oh Sabio verdadeiro, eras lucroso
Neste lugar! Cantor feliz do instincto,
Melhor te inspiraria aqui o olhallo.
Fofo o Pavão de assoalhar seu Iris,
A inchação do Peru, mais louco ainda,
Teus pinceis alegrára á nossa custa.
Viras aqui dos Pombos teus a imagem;
De dois Gallos amantes a discordia
A dizer outra vez te obrigaria:
«Tu derrubaste, Amor, de Troia os muros!»
Dest’arte nos apraz, e attrahe a Herdade.
Mas em outra prizão que vulgo fere
Por incognitos sons os meus ouvidos?
Estranhos animais alli se guardão,
Maravilhas dos olhos, alli vivem
N’um suave desterro encarcerados
Brutos da Terra, do Ar, e hum d’outro pasmão.
Extravagantes castas não procures,
Prefere o que he mais bello ao que he mais raro.
Mostra-nos aves n’outros Ceos criadas,
Que, validas do Sol, seus lumes vibrão;
Da Indiana Galinha o vivo esmalte,
E o oiro do Faisão purpureado.
Aves de ostentação melhor se alojem;
Ellas mesmas são luxo, e co’a belleza
Já que a inutilidade ellas compensão,
Brilhe a prizão como os cativos brilhão.
Rebeldes animais, porém, não tenhas,
Cujo orgulho se irrita, e cansa em ferros.
Quem póde ver sem magoa o Rei dos ares,
O passaro feroz, que andou folgando
Lá por entre o trovão, por entre o raio,
Quem póde vello na gaiola indigna
Esquecer o relampago dos olhos,
Dos vôos a altivez! Livre de novo,
Na abobada dos Ceos ao Sol se atreva:
Nunca póde agradar Ente aviltado.
Mas com seu lustre peregrino em quanto
Parece que estes hospedes diffrentes
Á minha escolha, á preferencia aspirão,
O olfato me convida a aquelles tectos,
Onde, do patrio chão tambem roubados,
Estranhos Vegetais o vidro ampara.
Tu cerca de ar macio as debeis plantas,
Mas venera estações, vencendo climas;
Não forces a brotar na Quadra fêa
Bens que a bons tempos Natureza guarda.
Deixa aos Paizes de aturado Inverno,
Deixa embora essas flores, esses fructos,
De falsa primavera, e falso Estio;
Certo de que ha de o Sol madurecellos,
Sem violentar seus dons, seus dons espera.
Mas folgo em ver no transparente abrigo
Prendas diversas de diversas plagas.
Os Ibéros jasmins alli se animão,
Friorenta congorça esquece a Patria,
Tenro ananás pelo calor se engana,
E usurpado thesoiro em si te entrega.
Talhe a Razão teus edificios varios,
De flores, e animais formoso hospicio,
Oh quantos, quantos mais, que o sitio abrace,
Que approve o gosto, recrear-nos podem!
A sombra desses humidos salgueiros,
Humidos com sadia agoa corrente,
Seja do banho o solitario asylo.
Além cabana, em que a frescura assiste,
Offerte ao Pescador linhas, e redes,
Não vês a mansidão deste Retiro?
Doce acolheita alli consagro ás Musas.
No seio florecido, e magestoso
Alli sómente hum obelisco ordeno:
Aos ares sóbe o monumento augusto,
E lavro sobre a pedra enternecida:
«A nossos destemidos Mareantes,
Que pela patria voluntarios morrem.»
Assim teus variados edificios
Nem desertos serão, nem ociosos.
Com seu lugar se ageitem massa, e forma,
Cada qual se coloque onde releva,
E não se perca, não destrua a scena
Por sobeja extensão, por muito aperto.
O que empece ao caracter, e utilisa
Sabe, pois; hum recanto quasi occulto
Lá bem n’um descampado, he que nos pinta
Melhor o desamparo, a soledade.
Sempre a cada expressão fiel te mostra;
Hum Ermo a grande luz não patentees,
Nem selva carrancuda esconda hum Templo:
Do Monte sobre a espádoa quer ser visto.
Movimento, esplendor, grandeza, e vida
O aerio sitio pelo quadro espalha.
Julgo hum aspecto olhar da bella Ausonia.
Esta dos Edificios, esta a graça.
Mas de tais monumentos a alegria,
Luxo moderno, e fresca mocidade
Valem de antigos restos a velhice?
Desses aqui, e alli dispersos corpos
O já desordenado, e grão volume,
A fórma pictoresca enlaça a vista.
Por elles sobre a terra está marcada
Dos Evos a carreira, e, destruidos
Pelos Vulcões, ou Tempestade, ou Guerra,
Instruem sempre, alguma vez consolão.
Sim, estas massas, que tambem da Idade
Cedem ao pezo, como nós cedemos,
Á derrota geral nos habituão,
E a perdoar á Sorte. Assim Carthago
Sobre os desfeitos muros n’outros tempos
Mário vio infeliz, e estes dois restos
Tão grandes entre si se consolavão.
Aproveita ruinas venerandas.
E tu, que os passos meus tens variado
Pelos selvosos campos, tu, que, longe
Das vulgares estradas, vás dictando
Leis aos jardins, oh Poesia amavel!
Oh Irmã da Pintura! A monumentos
De longa idade restitue a vida;
Presenta ao gosto os ricos accidentes,
Que o Tempo desenhou co’a mão remissa.
Huma antiga Capela ora apparece,
Modesto, e santo Asylo, onde algum dia
Hião em tosco Altar, na quadra nova,
As Donzelas, e as Mãis, e os seus Filhinhos
A bem das messes implorar o Eterno.
Consagra inda o Respeito estas ruinas.
Ora avulta acolá Castello annoso,
Em fragosos cabeços, que, Tyranno
Do Territorio, e dos Vassallos medo,
Co’as ameias aos Ceos arremettia;
Que em tempos de terror, discordias, sangue,
Vio lançadas mortais, vio gentilezas
De nossos invenciveis Cavalleiros,
Os Baiards, os Henriques: hoje o trigo
Sobre os fragmentos seus lourêa, e treme.
Esta triste, forçosa Architectura,
Cingida de verdor fresco, e risonho,
As esplanadas, e angulos, e torres,
Rotas, quasi abatidas, onde as aves
Dos amores em paz o fructo aquecem;
Os gados povoando estes guerreiros,
Recintos façanhosos, e o Menino,
Q’onde os Avós já guerreárão, brinca,
Fórma tudo isto singular constraste.
Delle te apóssa, dando aos olhos quadro
Duro, e brando, campestre, e belicoso.
Mais ao longe hum Mosteiro abandonado
Entre arvoredos subito se encontra.
Que silencio! Amadora dos desertos,
Com gosto alli, Meditação, te entranhas
Por baixo das abóbadas sagradas,
Por onde austeras Virgens, algum dia,
Como as turvas alampadas, que velão
Ante a Religião, tambem velavão,
E descarnadas, pálidas, ardião
Por Deos, e emfim, por Deos se consumião.
Santa contemplação, paz, innocencia,
Como que ainda este silencio occupão!
Musgosos muros, o Zimborio, as Torres,
Os arcos deste Claustro escuro, e longo,
Destes Altares o degráo roçado
Do supplice joelho, os vidros negros,
O sombrio, e profundo Santuario,
Onde, escondidamente desgraçadas,
Almas houve, talvez, que de seus laços
Ás inflexiveis Aras se carpissem,
E por doces memorias inda frescas
Algum medroso pranto ao Ceo furtassem:
Tudo commove alli, tudo alli falla.
Alli cevando a mente em soledade,
Ás vezes cuidarás, ao pôr do dia,
Que de alguma Heloisa a Sombra geme;
Que as lagrimas, que a dor, que os ais lhe sentes.
Logra, pois, estes restos de alto preço,
Térnos, augustos, pios, ou profanos.
Mas longe os monumentos, cujo estrago
Do fingimento he filho, e mal imita
Do Tempo as impressões inimitaveis:
Esses antigos Templos, fabricados
Inda ha pouco, as reliquias de hum Castello
Que jámais existio, Pontes idosas,
Que hontem nascêrão, Torreão dos Godos,
Que, roto, e gasto, não parece antigo:
São artificio inutil, e grosseiro.
Fitando-lhe a attenção, se me figura
Que vejo hum moço arremedando hum velho,
Despindo as graças da amorosa idade,
Sem que retrate da velhice as rugas;
Mas estrago real dá pasto aos olhos.
Restos, que já contemporaneos fostes
De nossos bons, e simplices Maiores,
Gosta meu coração de interrogar-vos,
E gosta de vos crer. De novo a Historia
Estudo em vós dos Tempos, e dos Povos.
Quanto esses Povos mais famosos forão,
E quanto mais famosos esses Tempos,
Tanto mais nesses restos fico absorto.
Campos de Italia! Oh Campos d’alta Roma!
Onde jaz, por fatal, e horrivel quéda,
Com todo o seu orgulho o Nada do Homem!
Ahi he que ruinas, afamadas
Por grandes nomes, por memorias grandes,
Dão sublimes lições, aspectos graves,
Thesoiros que as paizagens enriquecem.
Vê como, cá, e lá, por toda a parte
A rapidez dos Seculos tremendos,
Das Artes os prodigios destroçando,
Sepulcros arrojou sobre Sepulcros,
Hum Templo derribou sobre outro Templo,
Olha as Idades blasonando ao longe
Co’a ruina immortal da excelsa Roma.
Os pórticos, e os arcos, (onde a Pedra
Em carácter fiel conserva ainda
Do Povo Rei magnânimas proezas),
Pórticos, e arcos tem cansado os Tempos,
Ondas suspensas por aqui bramião,
Por baixo destas pórtas dilatadas
Os despójos do Mundo hião passando.
Esparzidos estão, no pó confusos
Por toda a parte, os Thermes, os Palacios,
Os Sepulcros dos Cesares, em quanto
De Virgilio, de Ovidio, Horacio, e de Outros
Inda grata Illusão nos finge o rasto.
Oh tres, e quatro vezes venturoso
O Artista dos Jardins! Feliz quem póde
Destes restos divinos apossar-se!
Já lhe vai surdamente a mão do Tempo
Ajudando as tenções; já sobre pompas
Dos Senhores do Mundo, a Natureza
De recobrar os seus direitos fólga:
Lá onde o Domador dos Reis, lá onde
Campeava Pompêo com fasto immenso,
Agora dos Pastores se ouve a flauta,
Como nos dias do tranquillo Evandro.
Vê rir os campos que ao Cultor volvêrão,
E relvar os cabritos sobre os tectos,
E Obelisco arrogante além cahido:
Olha abraçado co’a columna altiva
O humilde espinho; as Arvores, as Plantas,
Subir, baixar em mil festões, mil cachos:
Aquella que Minerva aos Homens trouxe,
E a Figueira, pelo hálito dos ventos
Por entre estes estragos semeadas,
Acabão de abalar co’a raiz branda
As veneraveis Obras dos Romanos;
A torta vide, a hera, de cem braços,
Emtorno das ruinas serpeando,
A modo que desejão, que procurão
Recatar-lhe a velhice, ou guarnecella.
Se não tens estes restos estupendos,
Terás, sequer, os animados Bronzes,
Terás os Numes das Idades mortas,
Em que Arte divinal forçava os cultos?
Quiz dos Jardins, bem sei, Gosto severo
Lançar todos os Deoses dos Romanos,
Dos Gregos; mas porque? Nossas infancias,
Em Athenas, em Roma cultivadas,
Sua doce magía exprimentárão.
Estes Numes Agrícolas não erão?
Não Pastores? Porque has de, pois, tolher-lhes
Os bosques, os vergeis? Podem teus fructos
Rebentar sem auxilio de Pomona?
Ou te he dado expellir do Imperio Flora?
Ah! sempre essas Deidades nos encantem:
Das Artes inda he culto a Idolatria;
Mas haja perfeição, primor na escolha.
Não queiras nos jardins improprios Deoses,
Elles sem magestade, ellas sem graça.
Elege a cada qual assento idóneo,
Seus direitos nenhum ao outro usurpe.
Deixa nas selvas Pan. Porque motivo
Co’as Driades estão Tritões, Nereidas?
De que serve este Nilo, em vão croado
De canas, e a mostrar do pó manchada
A urna, que he de passaros abrigo?
Fóra os Leões, e os Tigres: esses monstros
Tè nas imagens suas me arripião;
E os Cesares tambem, mais monstros que elles,
Sentinellas horriferas das portas
De bordadas florestas, que, nojosos
Da suspeita, e do crime, inda parece
Com os olhos as victimas apontão.
Ao risonho lugar que jus tem elles?
Mostra-me Objectos que eu venere, eu ame;
Á sua apotheóses sagra hum sitio,
Elysios cria em que seus Manes folguem.
Longe de olhos profanos, sobre valles
De verdes murtas, de cheirosos loiros
Honrem seus vultos marmore de Paros;
Goste hum remanso de banhar tais selvas,
E, mesclando co’a sombra os dubios lumes,
Seja Diana affavel o Astro dellas.
Dos virentes doceis a formosura
Sobre as queridas, candidas Estatuas,
Destes Homens egregios o repouso,
A simples, a benigna magestade,
Correntes sem rumor, como as do Lethes,
Que para aquellas Almas tão serenas
Parece vão rolando o esquecimento
Da crua ingratidão, e de outros males;
Bosques, e o dia, entre elles expirando,
Tudo respira a paz dos Manes ledos.
Tu não consagres, pois, se não tranquillas,
Estremadas virtudes nesses campos.
Longe, longe os fatais Conquistadores,
Verdugos, não Heróes: esses lugares
Turbarião talvez como turbárão
Este Mundo infeliz: ahi colóca
Os amigos dos Homens, e dos Deoses:
Os de que ainda beneficios vivem
Na fama, e tradicção; tambem Monarcas,
De que o seu Povo não chorasse a gloria:
Mostra ahi Fenelon, mostra á saudade,
E com Sully se abrace Henrique o Grande.
Dá, dá-me flores, cobrirei com ellas
Os Sabios, que em longinquas, novas praias
Artes consoladoras demandárão,
Artes consoladoras desparzírão.
E tu, primariamente, Heroe Britanno,
Tu Cook, infatigavel, denodado,
Que, acceito, e caro aos corações de todos,
Unes co’a magoa teu Paiz, e a França;
Que a essas Regiões, que aonde o raio
Outr’hora os Européos annunciava,
Util, novo Triptólemo, guiaste
O serviçal cavallo, a ovelha, o toiro,
O arado agricultor, e as patrias artes,
Nossas furias, e roubos expiando.
Com doce paz fraterna lá surgias;
Prantos, e beneficios lá deixavas.
Recebe de hum Francez este tributo...;
E á minha gratidão que importa o clima?
Virtudes immortais do illustre Nauta
Nosso Concidadão já o fizerão;
No grande exemplo o nosso Rei se imite;
Digno de ser seu Rei. Ah! que aproveita
Ao pasmoso Varão ter vezes duas
Visto os Mares de gêlo, os Ceos de fogo,
Ter estes afrontado, e roto aquelles?
Que as ondas, ventos, Povos o acatassem;
Que em toda a vastidão do Pego immenso
Fosse immune, e sagrada a quilha sua;
Que só com elle reprimisse a Guerra
Seu hórrido furor? Do Mundo o Amigo
Ai! Morre ás mãos de barbaros Selvagens.
Oh vós, que lamentais seu fim cruento,
Da potente Albion soberbos filhos,
Imitai-lhe, que he tempo, a ambição nobre.
Porque em vossos iguais quereis escravos?
Dai-lhe fraternidade, e não cadeias.
Dos loiros triunfais cingida a fronte,
Dos loiros, que o Francez colheo de novo,
Té a mesma Victoria a Paz cobiça.
Desce, Prole do Ceo, Paz suspirada,
Doira este Globo, emfim, com teus sorrisos,
Dos sitios, que eu cantei, requinta as graças;
Fórma hum Povo feliz de tantos Póvos;
Aos campos abundancia restitue,
E restitue ás ondas o commercio:
Hajão da tua mão, propicio Nume,
Os dois Mundos socego, as Artes vida.
FIM DO CANTO QUARTO.
NOTAS DO PRIMEIRO CANTO.
Assumpto amavel, que tentou Virgilio, etc.