Entre os rios aqui, e as sacras fontes
Gozarás em repouso a sombra amena.
PROLOGO
DO
AUTHOR.
Varias pessoas de grande merecimento escrevêrão em prosa á cerca dos Jardins. O Author deste Poema colheo dellas alguns preceitos, e até descripções. Em bastantes passagens teve a dita de encontrar-se com tão bons Escritores, porque este Poema foi começado antes que elles publicassem as suas obras. Confessa que dá ao prelo com extrema desconfiança huma composição muito esperada, e engrandecida de mais: a indulgencia excessiva, dos que a ouvìrão, lhe agoira a severidade, dos que a lerem.
Este Poema, além disso, tem hum grave inconveniente, o de ser didáctico. Tal genero he necessariamente hum pouco frio, e mais o deve parecer á huma Nação, que lhe custa muito (como se tem observado repetidas vezes) a tolerar versos, em não sendo os compostos para o Theatro, os que pintão as paixões, ou as baldas dos Homens. Poucas Pessoas, digo mais, até poucos Litteratos lem as Geórgicas de Virgilio, e quasi todos, os que aprendêrão Latim, sabem de cór o quarto Canto da Eneida.
No primeiro destes dois Poemas, dá o Poeta a entender que sente não lhe permittirem os limites do seu assumpto cantar os Jardins. Depois de haver lutado longamente com as miudas, e hum tanto ingratas particularidades da cultura geral dos Campos, a modo que deseja repousar sobre mais risonhos objectos. Mas estreitado no de que trata, vinga-se desta sujeição com hum bello, e rápido esboço dos Jardins, e com o pathetico episódio de hum Velho feliz no seu pequeno campo, que elle mesmo cultiva, e enfeita.
O que o Poeta Romano sentia não poder executar, executou o P. Rapin. Escreveo na lingua, e ás vezes no estilo de Virgilio, hum Poema em quatro Cantos sobre os Jardins, que foi mui applaudido, n’um tempo em que ainda se lião versos Latinos modernos. A sua obra não he despida de elegancia; mas quizera-se que abundasse de precisão, e de melhores episódios.
De mais, o plano do seu Poema não interessa, não tem variedade. Hum Canto he consagrado ás agoas, outro ás arvores, outro ás flores. Adivinha-se o comprido cathalogo, e a enumeração tediosa, que mais pertence ao Botanico que ao Poeta: e aquelle passo methódico, que assás prestaria n’um tratado em prosa, he grande defeito n’uma composição Poetica, onde o Espirito pede que o levem por caminhos hum pouco desviados, e lhe apresentem objectos que não espera.
Além disto, Rapin cantou Jardins do genero regular, e a monotonia inherente á summa regularidade, passou do assumpto ao Poema. A imaginação, naturalmente amiga da liberdade, ora vai a custo pelos desenhos enviezados de hum canteiro de flores, ora morre no fim de huma longa, e direita alameda. Por toda a parte lhe lembra com saudades a formosura hum tanto desordenada, e a chistosa irregularidade da Natureza.
Emfim, aquelle Author não tratou senão a parte mecanica da Jardinagem. Totalmente esqueceo a mais importante, a que procura em nossas sensações, em nossos sentimentos a origem do prazer, que nos causão as scenas campestres, e os attractivos da Natureza aperfeiçoados pela arte. Em suma, os seus Jardins são os do Architecto; os outros são os do Filosofo, os do Pintor, os do Poeta.
Este genero tem medrado por extremo ha annos, e se isto he tambem effeito da moda, demos-lhe graças. A arte dos Jardins, a que se poderia chamar luxo da Architectura, parece hum dos entretenimentos mais convenientes, e talvez hum dos mais virtuosos da Gente rica. Como cultura, reconduz á innocencia das occupações campesinas; como adorno, apadrinha sem risco a paixão dos dispendios, que acompanha as grandes Fortunas: finalmente, esta arte tem para semelhante classe de Homens o duplicado prestimo de participar, ao mesmo tempo, dos gostos que vogão nas Cidades, e dos que existem nos Campos.