Singular poder! Sendo tamanho, profundamente temido dos que flagellava e ardentemente adorado dos que protegia, é na sua constituição d'uma tão homogenea espontaneidade, d'uma ingenuidade tão constante e perfeita, que quasi escapa á analyse e se torna impossivel decompol-o e observal-o nos seus elementos.
Não póde sem impropriedade ou violencia applicar-se a palavra arte á eloquencia de José Estevão. Arte oratoria, esta disposição reflectida e determinada dos pensamentos e a escolha meticulosa de termos que os exprimam, tendo em attenção o effeito que hão-de produzir sobre o ouvinte e amoldando-se para esse fim a caracteres e tendencias psychologicas, previamente estudados e astuciosamente explorados, o calculo da impressão,--essa arte não a teve José Estevão. De todo a desconheceu.
A sua palavra corre como correm os rios, rebentando onde um impulso natural os fez rebentar, sem nada cuidarem dos obstaculos ou inclinações propicias que os esperam, escavando aqui e amontoando acolá, ora derrubando e destruindo, ora fertilisando e fazendo crescer, resultando de tudo afinal belleza e explendor, dos destroços e ruinas como das creações magnificas. Logica, gradação d'argumentos por sua progressiva intensidade, crescendos de força arranjados com sabedoria, o caminhar a uma méta que nunca se perde de vista e para a qual nós dirigimos os passos, regulando-os e guardando-lhes toda a viveza e celeridade para o derradeiro lanço decisivo, a famosa arte de persuadir, levada ao fastigio em remotas eras por talentos assignalados com justiça nos annaes da humanidade,--isso é cousa que em vão se procurará nos discursos de José Estevão. Muitos d'elles e dos mais celebres podiam baralhar-se, trocando o fim pelo principio e o meio pelos extremos, e ficariam igualmente bellos, sem perderem um atomo da energia d'acção sobre o nosso espirito. Examinando-os, teremos talvez de concluir que esse homem que tantas vezes persuadia e sempre subjugava, não fallou para persuadir nem para subjugar, mas apenas para dizer a verdade e por amor d'ella, para a dizer tal qual no seu entendimento e sobretudo no seu coração se revelava, por uma necessidade indomavel e intima, e não para no impulso prender ou esmagar os estranhos. Por vezes, poderemos convencer-nos com boas razões de que quem tão duramente castigou e tão nobremente enalteceu, nunca pensava em castigar ou enaltecer o quer que fosse, e apenas buscava dar satisfação a surdas e indistinctas exigencias da consciencia, que não lhe permittiam ficar quieto e calado. Se esse modo de ser redundou em uma arte sublime, não foi por seu querer, não foi porque o procurasse; e tudo quanto a critica poderá descobrir na observação e meditação das suas obras, será, não a sua arte, que a não teve, mas os caracteres e fundamentos da sua eloquencia, o que é differente.
Gabavam-lhe a imaginação. Era famosa. De facto, abundou no seu temperamento e sempre lhe assistia, nas cousas graves da vida e nas mais vulgares, no convivio quotidiano com os amigos e nos grandes lances da fortuna nacional.
Fallando de D. Fernando I, no parlamento, ia dizendo:--«Este rei fraco e versatil tinha uma filha formosa...». Corrige-lhe o erro Almeida Garrett.--«Não era formosa», diz-lhe n'um aparte. «Não seria», replica de prompto José Estevão. «Julguei que fosse contra as prerogativas da corôa chamar feias ás princezas[[36]]».
O segundo discurso do Porto Pireu é uma torrente de imaginação, rebentando em borbotões, incessante, colorindo e animando toda a oração, e dando-lhe um relevo primoroso. A historia da ordem e a enumeração dos que José Estevão ia vendo no Pireu, incidentemente, em diversos momentos do discurso, marcam até hoje o apogeu do explendor do parlamento portuguez, e não é facil conceber como nem quando será excedido, porque soffrem sem deslustre a aproximação das mais bellas paginas d'esse genero legadas por qualquer epoca ou civilisação.
«Passo á historia da ordem», disse o tribuno. «N'ella tudo é grandeza, doçura, prazer e maravilha. Assim a empreza fosse facil! Que lingua póde revelar os seus mysteriosos trabalhos, descrever com delicadeza a efficacia portentosa dos seus meios, e a pompa dos seus resultados? Que engenho póde comprehender todos os phenomenos da ordem, e abranger a extensão dos seus dominios? Quem póde, arrombando os umbraes da eternidade, ver a ordem, luctando com o cáos, obrigar a natureza ás leis da harmonia?
«A ordem, primeiro, encerra no centro d'esse cáos as materias vulcanicas, essas massas anarchicas da natureza, depois empola os montes, escava os valles, encana os rios, recolhe os mares, azula o céu, alumia a terra, suspende os passaros nas azas, equilibra os peixes no nado, levanta nos pés os outros animaes, tira do pó o rei gozador d'estas maravilhas, da costella d'esse rei a rainha sua companheira, e inspira a esse par ditoso o seu primeiro beijo, beijo creador e fecundo, de que a nossa vida é um presente. Ingratos! Devemos a vida á ordem, e negamos-lhe os respeitos que ella merece!
«Por outro lado, quem forjou a espada organisadora de Nemrod? A ordem. Quem salvou das aguas do Tibre os infantes fundadores de Roma, e com elles os fados do Lacio? A ordem. Quem ensinou os caminhos, quem conduziu atravez de todas as difficuldades os barbaros do norte? A ordem. Quem fez dum almocreve arabe o chefe duma religião? A ordem. Quem deu a Carlos Magno a sua poderosa espada? A ordem. Quem compoz o balsamo de Ferrabraz? A ordem. Quem fez as botas de Carlos 12.º o chapéu de Henrique 4.º e o casaco de Napoleão? A ordem. Quem finalmente inventou as bellas artes, a musica, a pintura e a esculptura, e a grande e nobre arte da gastronomia? A ordem. Ingratos! E devemos tudo á ordem, e não lhe damos a consideração de que ella é credora!
«Quando a expedição restauradora, epilogo romantico de esperanças, de receios, de saudade e valor, quando essa expedição que em si encerrava maiores fados que a náu sagrada dos athenienses, atirou peça de leva nas lagoas dos Açores, quem se poz ao leme dos seus navios? A ordem. Quem abateu os mares, quem enfreou os ventos, quem fez singrar os escaleres, quem deu a mão ao soldado para saltar em terra, quem tangeu os clarins, quem rufou os tambores, quem limpou o fusil, quem fez rodar o canhão? A ordem... Está decidido; não ha outro poder na terra senão a ordem. Todo o mundo material e politico lhe pertence. Entelechias de Malebranche, turbilhões de Descartes, monadas de Leibnitz, gravitação de Newton, principio utilitario, escola sentimental, força de costumes, educações religiosas, genio de legisladores, tudo isto é nada, e o mundo não lhe deve nem bem nem mal. Só a grammatica se póde apresentar como rival da ordem, e disputar-lhe o imperio do mundo; tambem ella tem pretenções anteriores, grandes e importantes, e já um seu predilecto as sustentou com gravissimas razões.»