«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que com uma carta de recommendação mercantil, assignada pela ordem, cujas letras no mercado politico estão agora valendo tanto como os titulos azues na nossa praça, julgam converter o paiz em uma feitoria sua de poder, alcançando que todos os ministerios lhes venham sempre consignados... São os que tendo feito alguns lucros de reputação, quando a praça tinha menos negociantes, julgam que podem esperdiçar o ganho, reputando que alguns papeis de credito, que ainda teem em suas carteiras, são effeitos de grande valor, e não vendo já sobre os seus escriptorios o sello da quebra, e a impossibilidade de apurar da massa fallida sommas que possam exceder ás quantias necessarias para o pagamento priviligiado de caixeiros, creados e outros que lhe ajudaram a grangear suas poucas riquezas scientificas.
«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que vem despachar ás alfandegas da publicidade estes fardos avariados da historia, sem o sello da critica, e expôr á venda no bazar do parlamento, em vez dos panos finos da verdade, as baetas do sofisma.
«Estão tambem no Pireu os que, vendo voltar dos bancos das eleições muita embarcação carregada de quartolas de confiança, de barris de votos, de dornas d'actas, e tendo muitas vezes emprehendido sem successo esta pesca d'alto com perda de barcos e apparelhos, agora julgam fazer-se senhores do ganho de toda esta especulação, fingindo-se caixeiros e guarda-livros da nação, e querendo comprar por sua conta todo o pescado, passando para tudo isto lettras em nome d'ella, com o mesmo direito com que uma vez tres alfaiates inglezes proclamaram em nome da Grã-Bretanha.
«Estão no Pireu os que, considerando a corôa como uma mina, se associam a todas as campanhas nacionaes e estrangeiras para a explorar, meditando largar a empreza logo que a veia estiver pobre, e as galerias de mineração inundadas... Estão no Pireu os que, depois de terem feito suas genuflexões á estatua de ferro de usurpação, foram para a emigração adorar algumas estatuas de ouro que por lá se levantaram, e que depois se recolheram ao paiz para se associarem, não com aquelles que haviam sustentado o colosso da tyrannia, julgando que combatiam pelo bem da nação e pelos direitos da realeza, mas com os que sem acreditarem causa alguma as seguem todas, que teem a chronologia das desgraças publicas marcada no peito com as insignias das mercês, e que havendo levantado o usurpador do pó do nada, depois que tiraram todo o partido dos seus maleficios, procuraram minar o seu poder para servirem outro senhor que melhor lhes pagasse.
«Estão no Pireu os actores de todos os entremezes, comedias e tragedias ministeriaes, que vestem com a mesma facilidade a jaqueta de gatuno, o manto do rei tyranno, e o chambre d'aulico retirado, sem lhes importar os apupos da plateia e as censuras dos litteratos, procurando só que haja boas enchentes, que as escripturas da empreza sejam cumpridas, embora todos os dias mudem os emprezarios.
«Estão no Pireu os que, deixando o licito commercio da virtude e da honestidade, se pozeram a traficar em galões, plumas e lantejoulas, e que, sollicitando um logar nos mercados das côrtes estrangeiras, para irem expor á venda suas fazendas, o não poderam alcançar.
«Estão finalmente no Pireu os que vieram para a casa commercial Revolução & Companhia, como a mocidade do Minho vem para as lojas do Porto, e que, tendo feito alguma fortuna pela bondade dos patrões, agora os perseguem, desacreditam e procuram arruinar por todo o modo.
«Mas quem é toda esta gente que se acha no Pireu? Que está ella lá fazendo? Foi um sonho! No Pireu só vejo uma companhia de trabalhos braçaes, que corre avidamente á praia, quando chega alguma carregação ministerial, e que carrega por todo o preço os fardos de que ella se compõe, qualquer que seja a firma commercial com que venham marcados[[37]].»
Foram longas as citações, apparentemente abusivas. Mas quem as houver seguido, logo comprehenderá que constituem documentos essenciaes da nobreza de José Estevão, pergaminhos inseparaveis do seu nome, onde quer que elle appareça. A fulguração do seu genio deslumbra e entontece n'esses momentos.
Quando, porém, se lhe tornou necessario passar da reproducção pitoresca do presente á resurreição da simples verdade historica, quando conveio e lhe aprouve trocar pela contemplação grave d'outros tempos a feira de cobiças e vaidades, a que assistia e de que pintou tão completamente a diversidade de gentes e trajos, e a azafama e tumulto de mercar e ganhar, encerrou largos horisontes em curtissimos quadros, favorecido sempre por igual poder de imaginação. Em breves traços exprimiu e resumiu crises profundas, condensando n'um rapido lampejo uma situação moral, economica, politica e militar, sem preterição dum só dos seus caracteres e pondo-os todos manifestos com uma transparencia cristallina. A imaginação puramente descriptiva não ficava áquem da imaginação creadora. A renovação do acontecido e distante não foi menos perfeita do que a obra de phantasia, na qual traduziu a realidade presente, moldando-a, vestindo-a e compondo-a em formas desusadas e inesperadas.