Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado. As suas preoccupações andavam muito longe da alegria em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos lançavam os convidados.

Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida e folgadamente; toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura, supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração tumido de angustias passadas e de esperanças futuras.

Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa proseguiu redobrando de animação.

Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita doçura. Do governo da casa não havia a cuidar; D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.

Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a pé pelos caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza, passeios de carruagem pelas margens do rio, e o serões em casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.

Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia tranquilla pela satisfação das convenções do mundo, e comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais carregava de crimes e remorsos.

Emprehendia a educação do espirito de Laura, admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.

Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura, tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento christão, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de coração, Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.

Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher superior.

Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos de conversação foram as imagens do oratorio e particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia: